domingo, 9 de outubro de 2011

Prêmio é dividido entre três mulheres

As ganhadoras do Nobel da Paz 2011 Tawakkul Karman, Ellen Johnson Sirleaf e Leymah Gbowee. Fotos: Mandel Ngan/AFP
OSLO, Noruega (AFP) – O Prêmio Nobel da Paz foi concedido nesta sexta-feira a três mulheres: a presidente liberiana, Ellen Johnson Sirleaf, sua compatriota e militante pela paz Leymah Gbowee e a iemenita Tawakkul Karman, ativista da chamada Primavera Árabe.
As três foram “recompensadas por sua luta pacífica pela segurança das mulheres e de seus direitos de participar nos processos de paz”, declarou, em Oslo, o presidente do comitê Nobel norueguês, Thorbjoern Jagland.
“Não podemos alcançar a democracia e a paz duradoura no mundo se as mulheres não obtiverem as mesmas oportunidades que os homens para influenciar nos acontecimentos em todos os níveis da sociedade”, acrescentou.
A liberiana Ellen Johnson Sirleaf, de 72 anos, passou para a história ao converter-se, em 2005, na primeira mulher eleita como chefe de Estado no continente africano, em um país de quatro milhões de habitantes traumatizados por guerras civis que, de 1989 a 2003, deixaram 250.000 mortos, destruindo suas infraestruuras e sua economia.
“Desde sua posse em 2006, contribuiu para garantir a paz na Libéria, para promover o desenvolvimento econômico e social e reforçar o lugar das mulheres”, acrescentou Jagland.
Seu acesso ao poder foi possível pelo trabalho de Leymah Gbowee, “guerreira da paz”, fundadora do movimento pacífico que contribuiu, em particular com a convocação de uma “greve de sexo”, para terminar com a segunda guerra civil em 2003, assinalou o Comitê Nobel.
Lançada em 2002, essa iniciativa original levou as liberianas de todas as confissões religiosas a negar sexo aos homens até que cessassem os combates, o que obrigou Charles Taylor, ex-chefe de guerra convertido em presidente, a associá-las às negociações de paz.
“Leymah Gbowee mobilizou e organizou as mulheres além das linhas de divisão étnica e religiosa para pôr fim a uma longa guerra na Libéria e garantir a participação das mulheres nas eleições”, assinalou Jagland.
A terceira laureada, a iemenita Tawakkul Karman, “tanto antes como durante a Primavera Árabe, teve um papel preponderante na luta a favor dos direitos das mulheres, da democracia e da paz no Iêmen”, afirmou.
Karman, a primeira mulher árabe que recebe o Prêmio Nobel da Paz, numa primeira reação, declarou-se honrada e surpresa e dedicou seu prêmio à “Primavera Árabe”
“Trata-se de uma honra para todos os árabes, muçulmanos e mulheres. Eu dedico este prêmio a todos os ativistas da Primavera Árabe”, declarou ao canal de televisão árabe Al-Arabiya.
“Este prêmio é uma vitória para a revolução pelo caráter pacífico desta revolução”, afirmou a iemenita, entrevistada na Praça da Mudança em Sanaa, onde os opositores ao regime do presidente Ali Abdullah Saleh acampam desde fevereiro.
“Não esperava receber este prêmio e nem sequer sabia que minha candidatura havia sido apresentada”, acrescentou Karman.
Sirleaf, por sua vez, afirmou que a distinção é um prêmio para todo o povo liberiano.
“Estou muito feliz com este prêmio, que é o resultado de meus anos de combate pela paz na Libéria”, afirmou a presidente.
“Este prêmio é compartilhado com Leymah (Gbowee), outra liberiana, e é também um prêmio para todas as mulheres liberianas”, acrescentou.
Até o presente, em 111 anos, apenas 12 mulheres receberam o Nobel da Paz.
A última mulher a ganhar esta distinção também foi uma africana, a militante ecologista queniana Wangari Maathai, que acaba de falecer.
Este anos, o Nobel da Paz registrou uma cifra recorde de 241 candidaturas de indivíduos e organizações.
O prêmio será entregue em Oslo no próximo dia 10 de dezembro, data do aniversário da morte de seu fundador, o industrial e filantropo sueco Alfred Nobel.
O prêmio consiste em uma medalha e um diploma e uma quantia de 10 milhões de coroas suecas, o equivalente a um milhão de euros.

As razões da guerra

Ataque do grupo Al-Shabab, lidado a al-Qaeda, na terça-feira 4, em Mogadíscio, deixou 100 mortos. Foto: AFP
Os conflitos internos perduram há décadas na Somália, tendo derrubado inclusive o último governo oficial do país em 1991. A derrocada do então presidente Siad Barre, aliado da União Soviética e propagador de uma política autoritária com perseguições e tortura a opositores, deu-se pela ação de clãs rivais.
No entanto, os mesmos foram responsáveis pelo atual estado de anarquia vivido pelo país africano. A discordância sobre o substituto de Barre provocou uma batalha pelo poder entre os grupos, ameaçada apenas pela recente ascensão de grupos islamitas, como o Al-Shabab, lidado a al-Qaeda.
Nas duas últimas décadas ocorreram 14 conferências para tentar estabelecer um novo poder central, capaz de selar a paz entre as milícias armadas. Contudo, o insucesso desperta a atenção, pois, além de razões políticas, não há aspectos claros para manter os conflitos.
Afinal, como é comum na África, o país não possui fartas riquezas naturais a fomentar a discórdia, a exemplo do que ocorre no Sudão. Há, porém, reservas de minério de ferro, estanho, gipsita (gesso natural), bauxita, urânio, cobre e sal inexploradas, além de uma vaga suspeita da existência de reservas de petróleo e gás.
Uma eventual rivalidade étnica também não poderia ser atribuída aos conflitos, pois 85% dos habitantes da Somália são somalis, divididos entre clãs que brigam pelo poder.
Pobreza
Criada em 1960, a partir da fusão de um protetorado britânico e de uma colônia abdicada pela Itália, a Somália é um dos países mais pobres do mundo. Devido à falta de dados confiáveis, sequer figura no Índice de Desenvolvimento Humano da ONU.
Segundo a organização, a expectativa de vida no país em 2010 era de 50,4 anos, menor que no Níger, 167º colocado no ranking que reúne 169 nações.
O país de 637,6 mil quilômetros quadrados, o equivalente ao tamanho dos estados de Minas Gerais e Rio de Janeiro juntos, possui 9,9 milhões de habitantes vivendo com um PIB per capita de 600 dólares (1.068 reais), ou 1,6 dólar por dia (cerca de 2,8 reais). No Brasil, esse valor chega a 10 mil dólares por ano (17,8 mil reais).
Sem constar no quadro de integrantes da Organização Mundial do Comércio, a Somália produziu 5,09 bilhões de dólares (cerca de 9 bilhões de reais) em riquezas em 2010, basicamente com as indústrias de telecomunicação, têxtil e de pesca, segundo estimativas da CIA, agência de inteligência norte-americana. Esse valor, no entanto, é inferior a 10% do PIB gerado apenas pela cidade de São Paulo em 2008: 102,4 bilhões de dólares (cerca de 182,2 bilhões de reais).
A baixa produtividade da economia somali está também ligada ao alto percentual da população na faixa etária entre 0 a 14 anos (44,9%), a mais vulnerável e que não gera riqueza. A mortalidade infantil é uma das mais altas do mundo: 109,6 a cada mil nascimentos, contra 2,8 da Suécia.
Mergulhado na pobreza e enfrentando a pior seca dos últimos 60 anos, a Somália assiste ainda ao crescimento das milícias islâmicas, que desde 2006 tomaram o Sul do país, região que conta com 99,9% de muçulmanos.
Na terça-feira 4,  o Al-Shabab realizou um atentado na capital Mogadíscio, deixando ao menos 100 mortos e centenas de feridos. O ataque seria uma retaliação pela sua expulsão da cidade em agosto por forças do governo de transição e das tropas de paz da União Africana, no país para estabilizar a nação e estabelecer um governo democrático permanente em agosto de 2012.
Enquanto isso, a ONU alerta para as consequências da crise de fome que atinge mais de 4 milhões de pessoas e pode matar outras 750 mil nos próximos meses.
Além da falta de recursos para solucionar a crise de fome no Chife da África – composto ainda por Etiópia, Djibouti, Quênia e Uganda -, estimados em 2,5 bilhões de dólares, dos quais faltam 671 milhões, a ajuda humanitária não consegue chegar a todas as regiões do país por causa dos bloqueios e ataques de milícias islâmicas.
A seca também provocou o aumento de 260% nos preços de cereais em relação a 2010 e impulsionou uma migração em massa para Mogadíscio, que chegou a receber mais de 400 mil pessoas em busca de alimentos em agosto.
Os países vizinhos também recebem um elevado fluxo de refugiados somalis fugindo da fome e dos conflitos internos. Segundo o ACNUR, Alto Comissário da ONU para refugiados, há cerca de 850 mil somalis sob os cuidados da organização, além de 1,5 milhão de deslocados internos.
Piratas
Em meio aos problemas sociais e políticos, a Somália também virou alvo da atenção internacional nos últimos anos pela atuação violenta de piratas. O país está em uma das mais importantes rotas navegação do mundo e responde por 30% dos ataques deste tipo.
Com o sequestro de diversos navios comerciais e até de um petroleiro saudita, as Marinhas de vários países deslocaram forças para a região e a Organização do Tratado de Atlântico Norte (OTAN) também passou a realizar operações de controle para evitar novos ataques.
Segundo o diário americano The New York Times, os lucros da pirataria somali em 2008 chegaram a 50 milhões de dólares. Os piratas possuem equipamentos avançados para suas operações, como lança granadas, fusis AK 47, GPS e telefones por satélite. Os pedidos de resgate geralmente ficam entre 1 a 2 milhões de dólares