terça-feira, 25 de novembro de 2008

A IMPLANTAÇÃO DA UNILAB E UMA BOA REFLEXÃO

Do arquiteto e professor José Sales Costa Filho, a contribuição parauma boa reflexão. assunto: A Universidade Federal da IntegraçãoLuso-Afro-Brasileira (Unilab), que vai se instalar ano que vem emRedenção (Região Metropolitana de Fortaleza). Confira:A "nova" expansão da Universidade brasileiraFoi definido nos laboratórios do Planalto um conjunto de medidas paraa "nova" expansão da universidade brasileira. Programa Reunipretende ampliar a quantidade de vagas da universidade pública e istoimplica na definição de novos campi universitários em localizaçõesdiversas, unicamente por critérios políticos, de certa formaquestionáveis. Sem considerar que a Universidade tem que ser um centrode excelência em ensino, pesquisa e, se possível, extensão.Aqui no nosso caso, no Estado do Ceará, foi criada a UniversidadeFederal da Integração Luso-Afro-Brasileira (Unilab), que terá sede emRedenção, município a 66 quilômetros de Fortaleza. Cinquenta por centodas vagas serão destinadas a alunos oriundos da África. Estamos aqui a4 horas de Cabo Verde, nosso portão de entrada para a África.Redenção, a cidade escolhida para sediar a universidade, temaproximadamente 15.000 habitantes em um município de uns 28.000. Aescala urbana de Redenção não tem suporte físico para receber umequipamento deste porte.A iniciativa é louvavel. Finalmente o Brasil pretende criar diretrizesde integração com o continente africano e com os países de línguaportuguesa ali localizados, com os quais temos uma forte identidadecultural - Cabo Verde, São Thomé e Principe, Angola e Moçambique,extensível a partes da Nigéria, notadamente a original "comunidadebrasileira" de Lagos, originária de "retornados" após o ato libertáriode 1888. Entretanto, a Instituuiçaõ vai ser implantada sem nenhumestudo de impacto urbano, sem se pensar na acessibilidade emobilidade, no suporte à moradia de professores, funcionários eestudantes e outros serviços urbanos necessários.

Plano Diretor deDesenvolvimento Urbano de Redenção - PDDU Redenção - foi feito háaproximadamente uns 10 anos atrás unicamente para cumprir umaexigência do Banco Mundial quanto a dotação de financiamento paradesenvolvimento urbano dos municípios pólo do Estado, o queinfelizmente Redenção ainda não é.De lá para cá absolutamente nada foi implantado do que se recomendou,a não ser um pequeno acesso urbanizado a um monte para peregrinaçãoreligiosas. Hoje Redenção é um lugar de passagem a quem demanda outrassituações do Estado, como as terras altas do Maciço de Baturité.Anteriormente, o município foi segmentado em dois unicamente -Redenção e Acarape - para atender acertos políticos das "elitesdominantes" locais.Entretanto nesta situação em estado inercial, no presente, vai serimplantada em menos de dois anos uma universidade com aproximadamente10.000 alunos e um corpo funcional equivalente com as exigências dedinamica urbana e vida pessoal que estas pessoas demandarão. Metadedestes alunos serão oriundos de países africanos com dificuldades deadaptação ao nosso país, por questões de cultura própria.Detalhes: Redenção não tem um único restaurante capaz de servir maisde 150 refeições período. Possui um único posto de abastecimento decombustíveis. Não existem hospitais ou mesmo centros de resolutividademédica de qualquer porte na cidade. E se eu não me engano, nenhumaagencia bancária. Não existe saneamento urbano na sede municipal e oabsatecimento de água tem carência de expansão para atender a demandalocal. Não existe nenhum roteiro de intervenções proposto para aquelemunicípio e o vizinho Acarape organizado pelo Governo do Estadoatravés da Secretaria das Cidades.Mais um caso para se pensar. E convém notar que estamos semprecorrendo atrás do fato consumado.

Cordialmente, José Sales

Fonte: www.eliomardelima.blogspot.com


Unilab inicia suas atividades em Redenção em 2010
19-Nov-2008
“Mais que um dever, é uma obrigação da UFC”. Assim o Reitor Jesualdo Farias classificou o papel da UFC como tutora do projeto de instalação da Universidade Federal de Integração Luso-Afro-Brasileira.
Ele participou de entrevista coletiva à imprensa em seu gabinete, sobre o assunto, na última quarta-feira, 19. A partir dessa data estão inaugurados os trabalhos da comissão de implantação da segunda universidade federal no Ceará. Já estão previstos para 2009 um total de R$ 30 milhões na lei orçamentária da União destinados a investimentos de pessoal e infra-estrutura da Unilab. Nos próximos cinco anos, mais R$ 160 milhões serão gastos na implementação completa da nova universidade.
Os cursos ofertados pela Unilab serão, num primeiro momento, ligados a quatro áreas: Formação de Professores, Saúde, Gestão e Ciências Agrárias e Florestais. Será discutida ainda, com o governo estadual, a implantação de uma quinta grande área, ligada ao potencial tecnológico cearense concretizado com a vinda da refinaria e da usina siderúrgica nos próximos anos. Essa demanda também já foi solicitada por Angola, interessada em cursos sobre produção de petróleo.
A tutoria da UFC em relação à Unilab se dará no apoio à estrutura física e de recursos humanos complementares para sua instalação. Enquanto a Unilab não estiver totalmente criada, o que deve ocorrer em meados de 2009 através de lei assinada pelo Presidente Lula, será de competência da UFC receber os primeiro recursos e tocar a implantação da Unilab, transferindo a ela, posteriormente, toda a sua estrutura, inclusive de novos equipamentos. O Prof. Jesualdo Farias esclareceu que não haverá impacto no orçamento da UFC com a implantação da Unilab, já que ambas têm orçamento próprios.
O projeto da Unilab visa integrar países membros da Comunidade dos Países de Língua Portuguesa (CPLP). Tem o objetivo de promover o intercâmbio acadêmico, fomentar pesquisas e ministrar ensino superior público em países como Angola, Cabo-Verde, Guiné-Bissau, Moçambique, Portugal, São Tomé e Príncipe, Timor Leste e até Macau, região administrativa especial da China.
Participaram também da coletiva o secretário de Ciência, Tecnologia e Educação Superior do Estado do Ceará e ex-reitor da UFC, Prof. René Barreira; o presidente da comissão de implantação da Unilab, Paulo Speller; a diretora de Desenvolvimento da Rede de Ifes da Secretaria de Educação Superior (Sesu) do MEC, Prof. Maria Ieda Costa Diniz; e a coordenadora de Assuntos Internacionais da UFC, Prof. Maria Elias Soares.
“Tem início hoje uma fase desafiadora do projeto da Unilab. Não é só o início dos trabalhos práticos de sua comissão, mas a implantação de uma missão de integração internacional, que envolve não só o MEC, mas os ministérios de Relações Exteriores e Ciência e Tecnologia”, esclareceu a Profª Maria Ieda.
Paulo Speller afirmou que a Unilab ofertará 5 mil vagas em seu início. Metade delas para alunos estrangeiros de língua portuguesa, principalmente africanos. “Queremos fomentar a criação e o fortalecimento de universidades próprias nos outros países, com um pólo da Unilab neles. Mas o MEC não esqueceu da demanda interna. A Unilab é uma universidade pública destinada também a todos os brasileiros”, esclareceu.
No futuro, mais 5 mil alunos devem ser incorporados à Unilab através dos cursos de educação à distância. Metade dos professores também será estrangeira. Os concursos públicos para docentes e servidores técnico-administrativos estão previstos para o segundo semestre de 2009. Já as atividades acadêmicas serão iniciadas no início de 2010.
O terreno que abrigará o campus da Unilab será desapropriado e doado pelo Governo do Estado. Ele terá até 100 hectares de área total, já se pensando numa expansão futura. O Poder Executivo estadual também se comprometeu a ampliar a estrada que liga Fortaleza à Redenção, alargando a segunda metade do percurso. “Redenção foi escolhida para abrigar a Unilab não só pelo simbolismo de ter sido o primeiro munícipio brasileiro a abolir a escravidão, mas também para atender a demanda da região do Maciço de Baturité por ensino superior público; daí o apoio do governo estadual”, afirmou o Prof. René Barreira.
Para abrigar os estudantes numa cidade com estrutura ainda deficiente em hospedagem, o projeto arquitetônico da Unilab, que sairá através de licitação ou de concurso nacional no primeiro semestre de 2009, contemplará amplos pavilhões de residência estudantil, a exemplo das universidades federais de Viçosa (MG) e Santa Maria (RS) e outras instituições européias.
Até 2010, serão 16 novas universidades federais implantadas desde 2003, onde 12 já estão em pleno funcionamento. Além da Unilab, também estão em processo de implantação a Universidade Federal da Integração Latino-Americana (Unila), em Foz do Iguaçu (PR), a Universidade Federal da Integração da Amazônia Continental (Uniam), em Santarém (PA), e a Universidade Federal da Fronteira do Sul (UFFS), de estrutura multicampi, mas com sede em Chapecó (SC).
Fonte: Profª Maria Elias Soares, Coordenadora de Assuntos Internacionais

sábado, 22 de novembro de 2008

II Mostra de Cinema Africano na Casa Amarela

Com o tema “Áfricas em trânsito”, a Casa Amarela Eusélio Oliveira recebe, de 25 a 29 de novembro, a II Mostra de Cinema Africano. A mostra é organizada pelo Grupo de Pesquisa Trabalhadores Livres e Escravos no Ceará: Diferenças e Identidades, do Departamento de História da UFC. De terça a sexta-feira, os filmes começam a ser exibidos às 18h, seguindo de debate. O evento será encerrado no sábado, 29, às 20h30, em noite cultural no Teatro Universitário Paschoal Carlos Magno, com apresentação de capoeira de Angola, afoxé, música e comida africanas. Confira a programação: - Dia 25, Heremakono – Esperando a felicidade (França/Mauritânia, 2002); debatedor: Prof. Franck Ribard; - Dia 26, Buud Yam (França, 1997); debatedor: Eurípedes Funes; - Dia 27, Tilaï (França, 1990); debatedora: Meize Lucas; - Dia 28, Pouco a pouco (França/Níger, 1972); debatedor: Sander Cruz Castelo, doutorando em Sociologia; - Dia 29, às 14h30min, Identidade (França, 1998); debatedor: Roberto Pontes; às 16h45min, Negros, a identidade no coração da questão negra (França, 2006); debatedora: Sandra Haydée Petit; às 19h, Jongo, calangos e folias. Música negra, memória e poesia (Brasil, 2007); debatedor: Hilário Sobrinho.

A Comunidade Camponesa do Caldeirão



A Comunidade Camponesa do Caldeirão: Fé, Trabalho e Coletivismo

Nas primeiras décadas do século XX o sertão caririense viu surgir uma comunidade de camponeses, baseada no trabalho e na oração, cuja estrutura produtiva interna, fundamentada no coletivismo e na igualdade, social, antagonizava-se aos ditames da exploração latifundiária-capitalista daquele período.
Chefiada pelo beato José Lourenço, a comunidade teve o mesmo destino de outras, como Canudos e Contestado, que foram destruídas a soldo dos interesses latifundiários e oligárquicos.
José Lourenço, sertanejo nascido em terras paraibanas (Pilões de Dentro), chegou a Juazeiro do Norte por volta do ano de 1890. Buscava orientação espiritual de Padre Cícero, e, quem sabe, ajuda financeira, como procedia a maioria dos homens do campo que para lá se deslocavam.
Conquistando a confiança de Pe. Cícero, Lourenço recebeu deste a missão de arrendar uma parcela de terra na região e ali desenvolver um trabalho com grupos de famílias de sertanejos.
As terras arrendadas, no sítio Baixa Danta, eram de solo árido e com vegetação “encapoeirada”. O trabalho árduo e contínuo de Lourenço e daqueles que já estavam em sua companhia, em algum tempo transformaria aquela terra em um local próspero. Cereais vários e muitos tipos de frutas eram extraídos do solo regado com o suor da labuta diária. Mas o que mais chamava a atenção era a forma como a produção era distribuída, obedecendo às necessidades de cada família, não havendo exploração de homens por homens.
Foi ainda no “Baixa Danta”, que José Lourenço iniciou-se como líder religioso (beato), os seus companheiros de comunidade tornaram-se seus seguidores.
A confiança de Padre Cícero em José Lourenço era plena. Para o sítio eram enviados por aquele e recebidos por este, homens miseráveis, ladrões, assassinos, cangaceiros, que para lá iam para serem “reeducados” pelo trabalho e pela fé.
A comunidade do Baixa Danta foi alvo de ataques das tropas rabelistas quando do movimento sedicioso do Juazeiro. Com o fim da sedição houve então a reconstrução daquilo que fora destruído e o trabalho continuou.

“A tranqüilidade de Lourenço e seus seguidores começou a ser quebrada com o episódio do “boi mansinho”. Os inimigos políticos de Padre Cícero e Floro Bartolomeu, para tentar descredibilizá-los, espalhavam boatos que davam conta de que o beato e os seus adeptos veneravam o animal como se ele fosse santo. Estas e outras falácias eram disseminadas inclusive na imprensa nacional, exigindo os seus autores a intervenção das autoridades.
Floro Bartolomeu, que à época era deputado federal, para acabar com a boataria, mandou prender o beato e abater o boi, tentando obrigá-lo a comer a carne do animal, o que não ocorreu. Depois de 18 dias de greve de fome, Lourenço foi libertado por ordem de Pe. Cícero”.

Em 1927, João Brito, o dono do sítio vendeu aquelas terras. O novo proprietário exigiu a imediata retirada da comunidade. Então o beato e “seu povo” deixou para trás tudo o que construíram em mais de 20 anos de trabalho, sem receber nenhum tipo de indenização.
Provavelmente em 1928 o beato e “os seus” foram alojados por Cícero Romão em uma de suas fazendas nas terras do Crato, na Chapada do Araripe. A fazendo Caldeirão àquele tempo era só “mato e pedra”. Lourenço e os sertanejos recomeçaram todo aquela trabalho comunitário antes realizado no Baixa Danta. Criou-se uma nova comunidade cuja produção era feita de forma coletiva, e sendo a religião a base de tudo.
Em pouco tempo o Caldeirão tornou-se produtivo e o seu sistema igualitário passou a atrair homens e mulheres, que já não suportavam a exploração latifundiária-coronelística.
A religião, na versão do catolicismo popular, tendo à frente o beato era a “solda ideológica” que unia todos os elementos que viviam naquela comunidade.
O “modo de vida” do povo do Caldeirão, oposto ao do mundo dos coronéis fundamentado na exploração, e o seu “catolicismo”, despertou não só sonho de sertanejos de viverem uma vida digna, mas também a ira dos senhores de terras e a oposição da igreja católica. Uniram-se então o clero, o estado e os latifundiários numa aliança que resultaria na destruição do Caldeirão.
Com a morte de Padre Cícero as perseguições intensificaram-se. Boatos novamente foram espalhados. José Lourenço era acusado de concubinato, de exploração do fanatismo dos sertanejos, etc. A comunidade era acusada de ser uma “Nova Canudos” e que constituía um perigo ao estado e à ordem social. Destruí-la era imperativo.
O aniquilamento daquela experiência social foi decidido em uma reunião ocorrida em Fortaleza, em fevereiro de 1936. Dela tomaram parte o governador Menezes Pimentel, Cordeiro Neto secretário de polícia, o Bispo do Crato Dom Francisco de Assis Pires e o deputado estadual Norões Milfont.
A primeira investida foi o envio do capitão José Bezerra, disfarçado de comprador de algodão, ao Caldeirão para desvendar-lhe os segredos, como possíveis armamentos e formas de resistência. Mesmo não encontrando armamento algum, o “espião” passa em seu relatório a idéia de que ali poderia estar um verdadeiro foco formador de uma “Nova Canudos”.
Em setembro de 1936 partiu de Fortaleza uma expedição da polícia militar, tendo à frente Cordeiro Neto e José Bezerra. Com a notícia da chegada da coluna militar, José Lourenço fugiu. A invasão se deu sem que houvesse nenhuma resistência da parte dos cerca de três mil camponeses do Caldeirão. A eles foi imposto que deixassem as terras que com tanto trabalho tornaram produtivas.
Expulsos do Caldeirão, parte dos camponeses se reaglutinou em torno do beato, objetivando fazer ressurgir a comunidade destruída. Porém eles estavam divididos. A minoria liderada pelo beato, defendia a via pacífica, a acomodação diante da realidade. Porém a maioria chefiada por Severino Tavares, defendia a retomada da fazenda e a vingança contra José Bezerra. A negativa do beato não demoveu aquele grupo do seu intento. Estes então resolveram agir sozinhos, preparando uma cilada para o capitão. A emboscada terminou com a morte de José Bezerra.
A notícia do ataque correu o Brasil. As autoridades do governo getulista proclamaram então; destruam o “antro de fanáticos”. Destacamentos do exército e até aviões foram usados contra os camponeses. O “saldo” foi a morte de mais de mil sertanejos.
José Lourenço conseguiu fugir juntamente com um pequeno grupo, e foi se instalar na Fazenda União em Exú Pernambuco, onde morreu em 1946. Se corpo foi levado a Juazeiro pelos seus seguidores, sendo enterrado no Cemitério do Socorro.

Reflexões de outubro
A intervenção de grandes potências manteve em funcionamento as funções vitais do sistema, mas não pode impedir o efeito-contágio da crise. Turbulências sociais regressivas poderão ocorrer na Europa do Leste, Ásia Central e África - onde assumiriam formas dramáticas
José Luís Fiori
(13/11/2008)
“Nós decidimos tomar medidas decisivas e utilizar todos os instrumentos à nossa disposição para sustentar as instituições financeiras que tenham importância sistêmica e impedir que elas possam falir”
Plano de Ação do G7, Washington, 10/10/2008
Na segunda-feira, dia 13 de outubro de 2008, o mundo amanheceu em silêncio e ficou em suspense, durante quase todo o dia, à espera do que seria uma espécie de “duelo final”, que estaria se travando nos principais centros financeiros do mundo , entre o poder político e os mercados. No final do dia, entretanto, os primeiros sinais já indicavam que não havia duelo e que o poder político tinha imposto sua autoridade sobre os “mercados financeiros”. Depois de uma semana de pânico, entre 5 e 12 de outubro, os governos das principais economias do mundo conseguiram, em poucas horas, formular um "plano comum" de intervenção maciça e estatização parcial dos seus sistemas financeiros. Ele cumpriu o seu objetivo imediato de estancamento de “sangria” e estabilização do cambio. Naqueles dias, quem quis, pôde ver e aprender que existe uma relação essencial e expansiva entre o poder político e o capital financeiro, e que, apesar de tudo, o que foi dito e repetido nestes últimos anos, o poder político tem uma precedência hierárquica e dinâmica, com relação aos mercados e ao capital financeiro. Ou seja: o poder e a riqueza capitalista se expandem juntos, mas o poder político é uma condição essencial, permanente e dinâmica dos mercados e do capital financeiro. Neste sentido, é interessante observar que o plano de nacionalização dos principais sistemas financeiros do mundo tenha sido formulado pela Inglaterra, com base na experiência da Holanda (e antes de ser aceito pelos EUA e pela União Européia). Logo a Inglaterra e a Holanda, as duas potências marítimas e econômicas que teriam estado na origem do “capitalismo liberal”, e na defesa permanente do laissez-faire.
Nas semanas seguintes, depois do dia 13 de outubro, a própria evolução da crise foi dando maior transparência a uma outra relação que costuma embaralhar a análise dos economistas: entre a moeda estatal e as infinitas moedas privadas e financeiras que coexistem dentro de um mesmo sistema econômico nacional e internacional. Permitiu separar a crise do “mercado financeiro do mundo”, que se estabeleceu nos EUA depois de 1980, de uma crise eventual do dólar e da hegemonia monetária dos EUA, que ainda não aconteceu. Essa foi a estratégia que o governo norte-americano adotou no campo internacional, buscando sustentar a confiança e a centralidade mundial do dólar. Durante todo o mês de outubro, os EUA mantiveram uma comunicação e uma coordenação com os governos e os bancos centrais do Japão e da China - os maiores detentores mundiais de obrigações do estado norte-americano. No caso da China, em particular, estabeleceu-se uma verdadeira parceira estratégica com o Tesouro norte-americano, na defesa do dólar e dos interesses financeiros comuns dos dois países. Na mesma linha de atuação, o Banco Central norte-americano (FED), fechou, depois do dia 13 de outubro, acordos para garantir liquidez em dólares dos BCs da Austrália, Canadá, Dinamarca, Inglaterra, Japão, Nova Zelândia, Noruega, Suécia, Suíça, e com o próprio Banco Central Europeu. Logo depois, no dia 29 de outubro, o FED ofereceu as mesmas facilidades e condições, além de uma linha de 30 bilhões de dólares para cada um dos BCs - do Brasil, México, Coréia do sul e Singapura.
Não há sinais de que os EUA estejam perdendo poder e capacidade de coordenação monetário- financeira, dentro da economia mundial
No mesmo dia em que o FMI anunciou - em acordo com o governo norte-americano -, a criação de uma nova linha de crédito sem condicionalidades para países em desenvolvimento, que estejam sofrendo os efeitos da crise e que mantenham políticas econômicas “sadias”. Ao lado dos programas tradicionais de ajuda do FMI, que vem sendo negociados neste momento, com os governos de quase todos os países da Europa Central, além da Islândia, Turquia, Paquistão e outros prováveis candidatos do sudeste asiático. Ou seja: em poucas semanas, depois do dia 13 de outubro, o Tesouro norte-americano e o FED, junto com o FMI, tomaram a iniciativa dentro e fora dos EUA e passaram a atuar de forma agressiva, coordenada e global, para sustentar a estabilidade e a centralidade do dólar, e não há sinais de que os EUA estejam perdendo poder e capacidade de coordenação monetário- financeira, dentro da economia mundial.
Por isso pode-se dizer – com razoável grau de segurança - que os problemas sistêmicos provocados pela crise financeira, deverão vir de outro lado, e eles já estavam se anunciando nos últimos dias do mês de outubro. Até então, a intervenção das grandes potências manteve as funções básicas do sistema em funcionamento (como se fosse cérebro, coração e pulmão), mas não teve como impedir o efeito contágio da crise, que já passou das finanças para o crédito, e deve atingir a produção, o emprego e as exportações de todo mundo, e de forma muito mais grave, no caso dos países menos desenvolvidos e com menor capacidade autônoma de socorrer seus próprios bancos e produtores. Todos organismos internacionais estão prevendo quedas acentuadas da produção, dos preços e das exportações. E a OIT crê num aumento imediato de 10% do desemprego mundial - mais concentrado nas regiões mais pobres do mundo. Nestas regiões, deve se prever um processo complicado de desintegração social e política. O mais provável é que as revoltas e revoluções sociais voltem à ordem do dia. Elas não serão socialistas nem proletárias, mas adquirirão maior intensidade e violência nos territórios situados em “zonas de fratura” ou de disputas e conflitos geopolíticos crônicos. Isto poderá ocorrer em vários pontos da Europa do Leste, e em alguns países da Ásia Central, e poderá assumir uma forma dramática no continente africano, sobretudo se tal regressão econômica e social coincidir com uma nova corrida imperialista sobre a África, que pode ser um prolongamento muito provável da crise atual.