sábado, 22 de novembro de 2008

A Comunidade Camponesa do Caldeirão



A Comunidade Camponesa do Caldeirão: Fé, Trabalho e Coletivismo

Nas primeiras décadas do século XX o sertão caririense viu surgir uma comunidade de camponeses, baseada no trabalho e na oração, cuja estrutura produtiva interna, fundamentada no coletivismo e na igualdade, social, antagonizava-se aos ditames da exploração latifundiária-capitalista daquele período.
Chefiada pelo beato José Lourenço, a comunidade teve o mesmo destino de outras, como Canudos e Contestado, que foram destruídas a soldo dos interesses latifundiários e oligárquicos.
José Lourenço, sertanejo nascido em terras paraibanas (Pilões de Dentro), chegou a Juazeiro do Norte por volta do ano de 1890. Buscava orientação espiritual de Padre Cícero, e, quem sabe, ajuda financeira, como procedia a maioria dos homens do campo que para lá se deslocavam.
Conquistando a confiança de Pe. Cícero, Lourenço recebeu deste a missão de arrendar uma parcela de terra na região e ali desenvolver um trabalho com grupos de famílias de sertanejos.
As terras arrendadas, no sítio Baixa Danta, eram de solo árido e com vegetação “encapoeirada”. O trabalho árduo e contínuo de Lourenço e daqueles que já estavam em sua companhia, em algum tempo transformaria aquela terra em um local próspero. Cereais vários e muitos tipos de frutas eram extraídos do solo regado com o suor da labuta diária. Mas o que mais chamava a atenção era a forma como a produção era distribuída, obedecendo às necessidades de cada família, não havendo exploração de homens por homens.
Foi ainda no “Baixa Danta”, que José Lourenço iniciou-se como líder religioso (beato), os seus companheiros de comunidade tornaram-se seus seguidores.
A confiança de Padre Cícero em José Lourenço era plena. Para o sítio eram enviados por aquele e recebidos por este, homens miseráveis, ladrões, assassinos, cangaceiros, que para lá iam para serem “reeducados” pelo trabalho e pela fé.
A comunidade do Baixa Danta foi alvo de ataques das tropas rabelistas quando do movimento sedicioso do Juazeiro. Com o fim da sedição houve então a reconstrução daquilo que fora destruído e o trabalho continuou.

“A tranqüilidade de Lourenço e seus seguidores começou a ser quebrada com o episódio do “boi mansinho”. Os inimigos políticos de Padre Cícero e Floro Bartolomeu, para tentar descredibilizá-los, espalhavam boatos que davam conta de que o beato e os seus adeptos veneravam o animal como se ele fosse santo. Estas e outras falácias eram disseminadas inclusive na imprensa nacional, exigindo os seus autores a intervenção das autoridades.
Floro Bartolomeu, que à época era deputado federal, para acabar com a boataria, mandou prender o beato e abater o boi, tentando obrigá-lo a comer a carne do animal, o que não ocorreu. Depois de 18 dias de greve de fome, Lourenço foi libertado por ordem de Pe. Cícero”.

Em 1927, João Brito, o dono do sítio vendeu aquelas terras. O novo proprietário exigiu a imediata retirada da comunidade. Então o beato e “seu povo” deixou para trás tudo o que construíram em mais de 20 anos de trabalho, sem receber nenhum tipo de indenização.
Provavelmente em 1928 o beato e “os seus” foram alojados por Cícero Romão em uma de suas fazendas nas terras do Crato, na Chapada do Araripe. A fazendo Caldeirão àquele tempo era só “mato e pedra”. Lourenço e os sertanejos recomeçaram todo aquela trabalho comunitário antes realizado no Baixa Danta. Criou-se uma nova comunidade cuja produção era feita de forma coletiva, e sendo a religião a base de tudo.
Em pouco tempo o Caldeirão tornou-se produtivo e o seu sistema igualitário passou a atrair homens e mulheres, que já não suportavam a exploração latifundiária-coronelística.
A religião, na versão do catolicismo popular, tendo à frente o beato era a “solda ideológica” que unia todos os elementos que viviam naquela comunidade.
O “modo de vida” do povo do Caldeirão, oposto ao do mundo dos coronéis fundamentado na exploração, e o seu “catolicismo”, despertou não só sonho de sertanejos de viverem uma vida digna, mas também a ira dos senhores de terras e a oposição da igreja católica. Uniram-se então o clero, o estado e os latifundiários numa aliança que resultaria na destruição do Caldeirão.
Com a morte de Padre Cícero as perseguições intensificaram-se. Boatos novamente foram espalhados. José Lourenço era acusado de concubinato, de exploração do fanatismo dos sertanejos, etc. A comunidade era acusada de ser uma “Nova Canudos” e que constituía um perigo ao estado e à ordem social. Destruí-la era imperativo.
O aniquilamento daquela experiência social foi decidido em uma reunião ocorrida em Fortaleza, em fevereiro de 1936. Dela tomaram parte o governador Menezes Pimentel, Cordeiro Neto secretário de polícia, o Bispo do Crato Dom Francisco de Assis Pires e o deputado estadual Norões Milfont.
A primeira investida foi o envio do capitão José Bezerra, disfarçado de comprador de algodão, ao Caldeirão para desvendar-lhe os segredos, como possíveis armamentos e formas de resistência. Mesmo não encontrando armamento algum, o “espião” passa em seu relatório a idéia de que ali poderia estar um verdadeiro foco formador de uma “Nova Canudos”.
Em setembro de 1936 partiu de Fortaleza uma expedição da polícia militar, tendo à frente Cordeiro Neto e José Bezerra. Com a notícia da chegada da coluna militar, José Lourenço fugiu. A invasão se deu sem que houvesse nenhuma resistência da parte dos cerca de três mil camponeses do Caldeirão. A eles foi imposto que deixassem as terras que com tanto trabalho tornaram produtivas.
Expulsos do Caldeirão, parte dos camponeses se reaglutinou em torno do beato, objetivando fazer ressurgir a comunidade destruída. Porém eles estavam divididos. A minoria liderada pelo beato, defendia a via pacífica, a acomodação diante da realidade. Porém a maioria chefiada por Severino Tavares, defendia a retomada da fazenda e a vingança contra José Bezerra. A negativa do beato não demoveu aquele grupo do seu intento. Estes então resolveram agir sozinhos, preparando uma cilada para o capitão. A emboscada terminou com a morte de José Bezerra.
A notícia do ataque correu o Brasil. As autoridades do governo getulista proclamaram então; destruam o “antro de fanáticos”. Destacamentos do exército e até aviões foram usados contra os camponeses. O “saldo” foi a morte de mais de mil sertanejos.
José Lourenço conseguiu fugir juntamente com um pequeno grupo, e foi se instalar na Fazenda União em Exú Pernambuco, onde morreu em 1946. Se corpo foi levado a Juazeiro pelos seus seguidores, sendo enterrado no Cemitério do Socorro.

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