segunda-feira, 1 de dezembro de 2008

PERÍODO JOANINO

A chegada da família real portuguesa no Brasil marcou intensamente os destinos do Brasil e da Europa. Pela primeira vez na história, um rei europeu transferia a capital de seu governo para o continente americano. Escoltados por embarcações britânicas, cerca de 10 mil pessoas fizeram a viagem que atravessou o oceano Atlântico. Sofrendo diversos inconvenientes durante a viagem, os súditos da Coroa Portuguesa enfrentaram uma forte tempestade que separou o comboio de embarcações. Parte dos viajantes aportou primeiramente na Bahia e o restante na cidade do Rio de Janeiro. Responsabilizados por escoltar a Família Real e defender as terras portuguesas da invasão napoleônica, os ingleses esperavam vantagens econômicas em troca do apoio oferecido. Já na Bahia, D. João, orientado pelo economista Luz José da Silva Lisboa, instituiu na Carta Régia de 1808 a abertura dos portos a “todas as nações amigas”. A medida encerrava o antigo pacto colonial que conduziu a dinâmica econômica do país até aquele momento. Além de liberar o comércio, essas medidas trouxeram outras importantes conseqüências de ordem econômica. O contrabando sofreu uma significativa diminuição e os recursos arrecadados pela Coroa também aumentaram. Ao mesmo tempo, os produtos ingleses tomaram conta do país, impedindo o desenvolvimento de manufaturas no Brasil, as cidades portuárias tiveram notório desenvolvimento. Dois anos mais tarde, o decreto de 1808 transformou-se em um tratado permanente. No ano de 1810, os Tratados de Aliança e Amizade e de Comércio e Navegação, fixaram os interesses britânicos no mercado brasileiro. Foram estabelecidas taxas alfandegárias preferenciais aos produtos ingleses. Os produtos ingleses pagavam taxas de 15%, os portugueses de 16% e as demais nações estrangeiras pagariam uma alíquota de 24%. Além desses valores, o tratado firmava um compromisso em que o tráfico negreiro seria posteriormente extinguido. Além de trazer transformações no jogo econômico, o governo de Dom João VI empreendeu outras mudanças. Adotada como capital do império, a cidade do Rio de Janeiro sofreu diversas modificações. Missões estrangeiras vieram ao país avaliar as riquezas da região, a Biblioteca Real foi construída, o primeiro jornal do país foi criado. Além disso, novos prédios públicos foram estabelecidos. A Casa da Moeda, Banco do Brasil, a Academia Real Militar e o Jardim Botânico foram algumas das obras públicas do período joanino. Nas questões externas, Dom João VI empreendeu duas campanhas militares nas fronteiras do país. No ano de 1809, tropas britânicas e portuguesas conquistaram a cidade de Caiena, capital da Guina Francesa. A manobra, que tinha por objetivo agredir o governo francês, colocou a região sob o domínio do Brasil até quando o Congresso de Viena restituiu a região à França. No ano de 1817, as tropas imperiais invadiram a Província Cisplatina. Essa nova investida militar era importante por razões diversas. Além de ser uma região de rico potencial econômico, o domínio sob a região da Cisplatina impedia uma possível invasão napoleônica às colônias da Espanha, que havia sido dominada pelas tropas francesas. Dez anos depois, um movimento de independência pôs fim à anexação da Cisplatina, dando origem ao Uruguai. Em 1815, a administração joanina elevou o Brasil à condição de Reino Unido. Essa nova nomeação extinguiu politicamente a condição colonial do país. Inconformados, os lusitanos que permaneceram em Portugal se mostravam insatisfeitos com o fato do Brasil tornar-se a sede administrativa do governo português. Foi quando, em 1820, um movimento revolucionário lutou pelo fim da condição política secundária de Portugal. A chamada Revolução do Porto criou um governo provisório e exigiu o retorno de Dom João VI a Portugal. Temendo a perda do seu poder, Dom João VI foi pra Portugal e deixou o seu filho, Dom Pedro I, como príncipe regente do Brasil. Os revolucionários, mesmo inspirados por princípios liberais, exigiram a volta do pacto colonial. No Brasil, as repercussões desses acontecimentos impulsionaram a formação de um movimento que possibilitou a independência do Brasil.
Por Rainer Sousa

REVOLUÇÃO CUBANA

Cuba conseguiu libertar-se da Espanha em 1898, com um exército comandado por José Martí composto em sua maioria por ex-escravos que, apesar de portarem facões, venceram soldados armados de fuzis e baionetas. Apesar de politicamente independente, o país passou a ser quase totalmente dominado pelos norte-americanos. Estes compravam a maior parte do açúcar cubano, o principal produto de exportação da ilha, e se aproveitavam disso para impor sua tutela. Essa dominação foi oficializada em 1901, através da imposição da Emenda Platt, por meio da qual os norte-americanos se reservavam o direito de instalar bases militares no país e de intervir militarmente toda vez que considerassem seus interesses ameaçados. Quase toda a riqueza de Cuba estava nas mãos de poucas famílias nativas e de empresas norte-americanas instaladas no país. Enquanto isso, milhões de cubanos alimentavam-se mal, moravam em barracos e viviam de empregos temporários. Os camponeses, por exemplo, tinham trabalho garantido apenas entre dezembro e maio; e a imensa maioria não sabia ler. Foi nesse cenário marcado por intensa desigualdade social que um grupo de revolucionários, liderado pelo jovem advogado cubano Fidel Castro, iniciou uma luta sem tréguas contra o ditador Fulgêncio Batista (1934-1958). Depois de uma tentativa fracassada de chegar ao poder, os revolucionários embrenharam-se na Sierra Maestra e, apoiados pelos camponeses partiram para a guerra de guerrilhas. Em janeiro de 1959, quase dois anos depois de iniciada a guerrilha, Fidel e seus companheiros, entre os quais estava o médico argentino Ernesto “Che” Guevara, conseguiram conquistar o poder, obrigando Batista a fugir do país. As principais medidas do novo governo foram; • a reforma agrária com distribuição de terras a 200 mil famílias; • redução em 50% nos aluguéis, de 25% nos livros escolares e 30% das tarifas de eletricidade; • nacionalização de usinas, indústrias e refinarias. Os norte-americanos consideraram-se prejudicados por esta última medida. Como represaria, deixaram de comprar o açúcar cubano. O governo de Fidel firmou, então, acordos comerciais com os países do bloco comunista, passando a vender o açúcar para eles. Os EUA reagiram rompendo relações diplomáticas com Cuba em janeiro de 1961. Três meses depois, 1.500 homens treinados pela Agência Central de Inteligência norte-americana (CIA) invadiram a baía dos Porcos, no litoral sul de Cuba, com o apoio aéreo dos Estados Unidos. A invasão da baía dos Porcos fracassou e centenas de norte-americanos foram presos. Em 1962, ocorreu a “Crise dos Mísseis”, quando o então presidente norte-americano John Kennedy bloqueou a ilha por mar, ameaçando invadi-la sob a alegação de que os soviéticos tinham ali instalado mísseis nucleares. O conflito foi resolvido por meio de um acordo entre os EUA e a URSS que determinava a retirada dos mísseis soviéticos, em troca do compromisso de os norte-americanos não invadirem a ilha. Neste mesmo ano, Cuba foi expulsa da OEA (Organização dos Estados Americanos) sob a alegação de que estava exportando os ideais socialistas para todo o continente. Com isso, os EUA visavam isolar o governo de Fidel Castro. Entretanto, nas décadas seguintes os países latino-americanos foram reatando pouco a pouco suas relações com Cuba.


A VEZ DA ESQUERDA NA AMÉRICA LATINA

Por Cristiano Catarin

O século XXI revela um domínio curioso de regimes governamentais chamados de esquerda nos principais países do continente americano como: Brasil, Venezuela, Argentina, Colômbia e Chile. Esta preferência está ligada, muitas vezes, a um forte desgaste nos partidos políticos tradicionais, ditos de direita. Sustentado por movimentos de resistência, os países latino-americanos estão experimentando a liderança estabelecida por regimes governamentais (reconhecidos pela forte oposição praticada aos modelos neoliberais do século XX) com objetivo de avançarem rumo ao desenvolvimento político-econômico sólido e equilibrado. A década de 1980 representou um cenário de desenvolvimento do modelo neoliberal, adotado por muitos países latino-americanos. O neoliberalismo gerou grande expectativa para a América Latina que estava em busca de estabilidade política e consolidação da economia. Por outro lado, nesse mesmo período iniciou-se uma grande resistência social estabelecendo forte oposição ao modelo neoliberal. Entretanto, a crescente presença de oposição ao neoliberalismo não conseguiu frear a quebra econômica de países como Brasil, Chile, Colômbia, etc. Em 1975 os Estados Unidos perderam a guerra do Vietnã, fato que abalou sensivelmente o governo americano. Em 1976, o então presidente dos EUA, Jimmy Carter mostrou-se defensor do fim da ditadura militar na América Latina e favorável ao regime democrático com objetivo de estabelecer novas diplomacias político-econômicas. Na verdade, quando um país está sob regime de ditadura militar, um dos primeiros sintomas negativos a ser revelado fica por conta do aumento significativo na dívida externa e também, uma gradual redução salarial do trabalhador (perda do poder de compra). As “páginas da História” revelam que o período pós-ditadura representou aos latino-americanos forte expectativa pela democracia e surgimento de características como: liberdade de imprensa, fortalecimento do sindicalismo, greves freqüentes e a criação de novos órgãos, novos partidos políticos. O experimento da democracia trouxe paradigmas aos países da América Latina. A expectativa certa de justiça mostrou-se insuficiente para provocar melhorias no cenário econômico desses países. A democracia não evitou, por exemplo, o aparecimento de moratórias, crise financeira e aumento considerável do desemprego. Diante deste panorama, os partidos tidos como tradicionais (em sua grande maioria conhecidos como de “direita”) começaram a perder espaço e a apresentar enfraquecimento de sua credibilidade no cenário político. Esse mesmo desgaste acabaria fornecendo elementos que mais tarde explicariam a presença de partidos políticos de “esquerda” ou ditos de esquerda sagrando-se vitoriosos em diversos processos eleitorais. O neoliberalismo somou-se à democracia e abriu espaço para um crescimento muito freqüente de movimentos sociais. A resistência popular passou a fazer parte de maneira mais presente na história da América Latina. Na Argentina de 2001 pôde-se ter uma idéia desta reação popular frente à crise econômica e política instalada no país. A Venezuela, sob governo de Chávez, é um exemplo de governo de esquerda que beneficiou-se do desgaste de partidos ditos tradicionais venezuelanos. Mesmo com a tentativa do Golpe de Estado sofrido 1992, o presidente venezuelano mostrou-se ainda mais forte após ter ficado por 72 horas preso. Chávez procurou popularizar às “diretrizes oficiais do Estado”, fornecendo acesso da informação as classes mais pobres do país. O presidente venezuelano também traçou um plano de melhor distribuição de renda baseado na redefinição dos lucros obtidos pela PDVSA (uma espécie de Petrobrás da Venezuela). Vale lembrar que a Venezuela é o atual 4º produtor de petróleo mundial. O maciço apoio manifestado pela população na época da tentativa de Golpe ficou conhecido como chavismo. Parte dos recursos da empresa petrolífera foram destinados a programas sociais. Chávez conseguiu aliar sua proposta política a satisfação da massa populacional mais necessitada (certa de 79% da população) reduzindo o índice de analfabetismo e de pobreza dos venezuelanos. O Brasil do século XXI é outro modelo onde revela também o desgaste de partidos tradicionais como PSDB, PFL, PL, dentre outros. Diante do enfraquecimento da credibilidade desses partidos, o PT – partido dos trabalhadores (tido como principal oposição à direita) sagrou-se vitorioso ao conseguir eleger seu candidato, Luis Inácio Lula da Silva, a presidente da república em 2002. Sua eleição mostrou superioridade constante em comparação aos principais adversários, ganhou com folga de 62% dos votos válidos em relação ao principal candidato do PSDB, José Serra. Em 2006, Lula foi reeleito e mais uma vez venceu com tranqüilidade seu adversário mais “perigoso”, também do PSDB, Geraldo Alkimin. Em meados de 2001 a Argentina foi protagonista de um fracasso político liderado pelo então presidente De la Rúa, defensor do regime neoliberal amparado pelo programa de ampla privatização das empresas estatais. Em 2001, cerca de 80% da população argentina estava mergulhada na miséria e 20% detinham toda riqueza produzida pelo país. A privatização da petrolífera YPF foi o maior golpe proferido ainda pelo governo de Carlos Saul Menem ao país. Com a privatização, milhares de empregos foram fechados e o endividamento externo da Argentina aumentou de maneira impressionante. Néstor Kirchner pegou a “batata quente” e tomou varias medidas com objetivo de conter a crise argentina. Uma das primeiras medidas foi negociar o pagamento da dívida externa do país. Kirchner apostou nas exportações de grãos, setor que movimenta bilhões de dólares para o país devido à super valorização dos produtos comercializados. As providências tomadas por Néstor podem não terem sido suficientes, mas foi o bastante para “ganhar” a aprovação do povo, tanto que desde 10 de dezembro de 2007, Cristina Kirchner passou a ser presidente da Argentina e ninguém tem dúvidas de que ela dará continuidade ao programa político e econômico iniciado anteriormente. Há 60 anos que a América Latina não apresentava freqüente reação social, freqüente oposição aos governos. A política de “esquerda”, ou dita esquerda, nunca tomou tanto espaço no cenário político dos países latino-americanos. Isto não quer dizer que seja o caminho certo, ou o caminho da reação da democracia. As enormes reservas de dólares no Brasil atual não refletem uma melhora na condição da população mais carente. Talvez reflita sim, numa redução da dívida externa, que seria tão bom senão tivesse aumentando significativamente a dívida interna do país.

Declaração dos Direitos do Homem e do Cidadão

Este documento que tornou-se um clássico para as democracias do mundo contemporâneo, foi aprovado no dia 26 de agosto de 1789, pela Assembléia Constituinte, no contexto inicial da Revolução Francesa. Seus princípios iluministas tinham como base a liberdade e igualdade perante a lei, a defesa inalienável à propriedade privada e o direito de resistência à opressão.Eis aqui a íntegra desse importante documento:A Assembléia Nacional reconhece e declara em presença e sob os auspícios do Ser Supremo, os direitos seguintes do homem e do cidadão:IOs homens nascem e permanecem livres e iguais perante a lei; as distinções sociais não podem ser fundadas senão sobre a utilidade comum.IIO fim de toda associação política é a conservação dos direitos naturais e imprescritíveis do homem; esses direitos são: a liberdade, a propriedade, a segurança e a resistência à opressão.IIIO Princípio fundamental de toda autonomia reside essencialmente na nação; nenhuma corporação, nenhum indivíduo pode exercer autoridade que ela não emane expressamente.IVA liberdade consiste em fazer tudo que não perturbe a outrem. Assim, os exercícios dos direitos naturais de cada homem não tem limites senão os que asseguram aos outros membros da sociedade o desfrute desse mesmo direito; esses limites não podem ser determinados senão por lei.VA lei só tem o direito de proibir as ações que prejudiquem a sociedade.Tudo quanto não for impedido por lei não pode ser proibido e ninguém é obrigado a fazer o que a lei não ordena.VIA lei é a expressão de vontade geral; todos os cidadão têm o direito de concorrer pessoalmente ou pelos seus representantes para a sua formação; deve ser a mesma para todos, seja os protegendo, seja ela os punindo.Todos os cidadãos sendo iguais aos seus olhos, são igualmente admissíveis a todas as dignidades, lugares e empregos públicos, segundo as respectivas capacidades e sem outras distinções que não sejam as das suas virtudes e as dos seus talentos.VIINinguém pode ser acusado, preso, nem detido, senão nos casos determinados pela lei, e segundo as formas por ela prescritas. Os que solicitam, expedem, ou fazem executar, ordens arbitrárias devem ser punidos; mas todo cidadão chamado em virtude da lei deve obedecer incontinenti; ele torna-se culpado em caso de resistência.VIIIA lei só deve estabelecer as penas estritas e evidentemente necessárias e ninguém pode ser punido senão em virtude de uma lei estabelecida e promulgada anteriormente ao delito e legalmente aplicada.IXTodo homem é presumido inocente, até que tenha sido declarado culpado e se for indispensável será preso, mas todo rigor que não for necessário contra sua pessoa deve ser severamente reprimido pela lei.XNinguém deve ser inquietado pelas suas opiniões, mesmo religiosas, desde que as suas manifestações não prejudiquem a ordem pública estabelecida pela lei.XIA livre comunicação das opiniões e dos pensamentos é um dos direitos mais preciosos do homem; todo o cidadão pode então falar, escrever, imprimir livremente; devendo responder pelos abusos desta liberdade em casos determinados pela lei.XIIA garantia dos direitos do homem e do cidadão necessita uma força pública; essa força é então instituída para vantagem de todos e não pela utilidade particular aos quais é confiada.XIIIPara manutenção da força pública e para os gastos de administração, uma contribuição comum é indispensável; ela deve ser igualmente repartida entre todos os cidadãos na razão das suas faculdades.XIVOs cidadãos tem o direito de constatar por si mesmo ou pelos seus representantes, a necessidade da contribuição pública, de a consentir livremente, de seguir o seu emprego, de determinar a quantidade e a duração.XVA sociedade tem o direito de pedir contas a todo agente público de sua administração.XVIToda sociedade na qual a garantia dos direitos não é assegurada, nem a separação dos poderes determinada, não tem constituição.XVIIA propriedade sendo um direito inviolável e sagrado, ninguém dela pode ser privado se não for por necessidade pública, legalmente constatada, sob a condição de uma justa e prévia indenização.Dos princípios aí expostos, dois tiveram uma importância toda particular na constituição de 1791:a) o princípio da soberania do povo, exposto no artigo III.b) o princípio da separação dos poderes, exposto no artigo XVI e emprestado dos escritos de Montesquieu.Como em um país tão extenso como a França, a nação inteira não poderia exercer diretamente a soberania, ela delega poderes: seu governo é representativo.

A Grande depressão de 1929
A crise econômica desencadeada a partir de 1929, quando da quebra da Bolsa de Valores de Nova Iorque, reflete a crise mais geral do capitalismo liberal e da democracia liberal. No período entre guerras (1919 -- 39), a economia procurou encontrar caminhos para sua recuperação, a partir do liberalismo de Estado, ao mesmo tempo em que consolidava-se o capitalismo monopolista. Mesmo nos EUA, as leis anti-trustes perdiam o efeito e grandes empresas -- industriais e bancárias -- tomavam conta do cenário econômico, protegidas pela política não intervencionista adotada principalmente a partir de 1921.A PROSPERIDADE AMERICANADesde o final do século XIX, a indústria norte americana conheceu um grande crescimento, no quadro da Segunda Revolução Industrial.Em 1912 foi eleito o presidente Woodrow Wilson, do Partido Democrata, a partir da defesa da Nova Liberdade, que começou a ser aplicada com a criação de leis trabalhistas específicas a algumas categorias profissionais como os marinheiros e de leis que pretendiam eliminar os grandes privilégios de pequenos grupos, através de mecanismos que coibiam o controle de mercado, aperfeiçoando a Lei Anti truste. No entanto o início da Primeira Guerra anulou essa política e a economia passou a ser dominada por Trustes, Holdings e Cartéis.As transações de produtos industriais e agrícolas se ampliaram com a abertura de créditos aos aliados, seguida da concessão de empréstimos à Inglaterra e França.
A TV, símbolo de prosperidade.A produção norte americana deu um salto gigantesco em vários setores, destacando-se a indústria bélica, de material de campanha, de alimentos e mesmo de setores destinados ao consumo interno, uma vez que o potencial de consumo no país aumentou com a elevação do nível de emprego; ou ainda para a exportação, principalmente para a América Latina, tomando o lugar que tradicionalmente coube à Inglaterra.O PERÍODO ENTRE GUERRASTerminada a Guerra, realizou-se a Conferência de Paris, onde os três grandes tomaram as principais decisões e impuseram os tratados aos países vencidos. No entanto, apesar da participação do presidente Wilson, os EUA não criaram mecanismos que garantissem sua participação nas reparações de guerra ou o pagamento dos empréstimos e das vendas aos países aliados, ao mesmo tempo em que não reivindicaram nenhum território colonial.O fim da guerra provocou a retração da economia norte americana, pois a industria de guerra diminuía o ritmo de produção, assim como os soldados que voltavam da guerra não eram absorvidos pelo mercado de trabalho, entre 1919 e 21 o país viveu a "Pequena Crise", determinando a derrota dos democratas.A partir de 1922 a França e a Inglaterra começam o processo de recuperação e passam a saldar suas dívidas com os EUA, porém esse procedimento somente será colocado em prática, na medida em que os alemães pagarem as reparações de guerra. A partir de 1924, os EUA passam a colaborar com a recuperação da economia alemã, fazendo investimentos no país, garantindo assim o pagamento das reparações e consequentemente das dívidas da época da Guerra esse período, após o ano de 1921, até a crise de 29 ficou conhecido como Big Bussines, caracterizado por grande desenvolvimento tecnológico, grande aumento da produção em novas áreas como a automobilística, geração de emprego e elevação do nível de consumo das camadas médias urbanas. Os edifícios tronaram-se os símbolos da prosperidade norte americana. A política econômica adotada pelos republicanos estimulava o desenvolvimento industrial em setores variados, a concentração de capitais ao mesmo tempo em que inibia as importações; essa política caracterizava-se pelo nacionalismo, que do ponto de vista social traduziu-se em preconceito e intolerância.A CRISE
Manchete de 1929Alguns componentes são fundamentais para a compreensão da crise: 1) a superprodução que desenvolveu-se durante e mesmo após a Primeira Guerra Mundial, quando o mercado consumidor estava em expansão. Após a guerra e com o início da recuperação do setor produtivo dos países europeus, a produção norte americana entrou em declínio. Essa situação expressou-se principalmente no setor agrícola.2) A especulação na década de 20 foi um fenômeno que também alimentou a crise, pois como as empresas estavam obtendo altos lucros, suas ações tenderam a crescer, originando sociedades anônimas e empresas responsáveis apenas por gerir e investir dinheiro.A primeira expressão da crise ocorre no campo, na medida em que as exportações diminuíam, os grandes proprietários não conseguiam saldar as dívidas realizadas no período da euforia, além disso eram forçados a pagar altas taxas para armazenar seus grãos, acumulando dívidas que os levou, em massa, à falência.A crise no campo refletiu-se nas cidades com o desabastecimento pois o poder de compra diminuía na medida em que a mecanização da indústria passou a gerar maior índice de desemprego; e ao mesmo tempo promoveu a quebra de instituições bancárias, que confiscavam as terras e ao mesmo tempo não recebiam os pagamentos dos industriais que passavam a não vender sua produçãoA QUINTA-FEIRA NEGRAA decadência nas vendas determinou um grande aumento dos estoques e ao mesmo tempo privou os industriais de capital necessário para saldar suas dívidas ou mesmo manter sua atividade. Dessa forma, muitos empresários passaram a vendar suas ações no mercado financeiro, elevando seu valor, como forma de levantar recursos e manter a produção; porém a elevação das ações fez com que milhares de pessoas passassem a vender as ações que, ao não encontrarem compradores despencaram, provocando vertiginosa queda nas cotações, levando bancos e industrias à falência, determinando a queda dos preços dos produtos agrícolas, provocando o desemprego de milhares de pessoas: 3 milhões em abril de 1930, 4 milhões em outubro do mesmo ano, 7 milhões um ano depois, 11 milhões m outubro de 32, de 12 a 14 milhões nos primeiros meses de 1933.A CRISE MUNDIALA crise espalhou-se rapidamente pelo mundo, devido a interdependência do sistema capitalista. Os EUA eram o maior credor dos países europeus e latinos e passaram a exercer forte pressão no sentido de receberem seus pagamentos. Com a quebra industrial, o bastecimento do mercado latino americano foi afetado, provocando a falte de produtos e a elevação de preços, as importações norteamericanoas diminuíam e mais uma vez os países latinos sentiam os efeitos da crise, pois viviam da exportação de gêneros primários ou mesmo supérfluos, como o café no Brasil.Na medida em que a economia européia se retraía, as áreas coloniais na Ásia e na África eram afetadas, pois aumentava a exploração das potências imperialistas.O único país a não sentir os efeitos da crise foi a URSS, que naquele momento encerrava o primeiro Plano Quinquenal e preparava o segundo, ou seja, desenvolvia uma economia fechada, que não utilizou-se de recursos externos, apesar das grandes dificuldades do país após a Revolução Russa e a Guerra Civil.

O QUE A MÍDIA NÃO CONTA

O QUE A MÍDIA NÃO CONTA
Mudanças em Cuba?
O acesso ao celular tornou-se massificado em todo o mundo ocidental nos anos 90. Nessa época, Cuba tinha prioridades diferentes à de proporcionar acesso ao telefone celular para a população. Segundo a Unicef, a cada dia mais de 26 mil crianças menores de cinco anos morrem de fome ou de doenças curáveis. Nenhum cubano faz parte destas listas.
Salim Lamrani - Rebelión

A imprensa tem sido prolixa com respeito às mudanças ocorridas em Cuba depois da escolha de Raúl Castro como presidente da República, e também comemorou uma eventual liberalização da economia da ilha (1). Mas esta realidade foi tratada, como sempre ocorre quando se fala de Cuba, de maneira superficial e errada. Seja com respeito à aquisição de aparelhos elétricos, aos hotéis ou aos celulares, as restrições que estavam vigentes até pouco tempo atrás tinham explicações racionais, mas as multinacionais da informação não abordaram nenhuma delas.Na verdade, foi lançado um intenso debate no início do ano 2008, pouco antes da decisão de Fidel Castro de não se apresentar para a reeleição, com o objetivo de melhorar o socialismo cubano. Esse debate envolveu o conjunto da população e gerou 1,3 milhão de propostas.Os aparelhos elétricos A mídia anunciou com grande estrondo que os cubanos já eram livres para adquirir aparelhos elétricos e eletrodomésticos, dando a entender que antes a venda estava completamente proibida (2). Contudo, a realidade é sensivelmente diferente. A venda destes artigos jamais esteve proibida em Cuba, fora alguns produtos de informática e outros de grande consumo energético, tais como os fogões elétricos ou os microondas, em uma época em que a produção energética de Cuba era insuficiente para cobrir as necessidades da população.Com efeito, durante o período especial, que começou em 1991, depois da desintegração do bloco soviético, Cuba ficou sozinha diante do mercado internacional e teve que enfrentar o desaparecimento de mais de 80% do seu comércio exterior e, também, o acirramento da implacável agressão econômica dos Estados Unidos. Neste contexto extremamente difícil, a ilha do Caribe foi golpeada por fortes penúrias, particularmente quanto à energia, o que provocava longos apagões. Nessa época, as autoridades limitaram a venda de aparelhos elétricos devoradores de energia. Essas restrições estavam totalmente justificadas. De fato, teria sido irresponsável proceder de outro modo, uma vez que o sistema energético, fortemente subvencionado, poderia ter entrado em colapso.Graças à engenhosidade dos cubanos, aos esforços que contaram com o apoio da população e às novas relações comerciais com países como a Venezuela e a China, Cuba dispõe de uma economia mais forte e conseguiu resolver seu problema energético. Graças à “Revolução energética”, lançada em 2006, que consistiu em substituir as lâmpadas e os antigos eletrodomésticos, como televisores, refrigeradores, ventiladores e outros aparelhos elétricos, por produtos mais modernos cujo consumo é menor, milhões de cubanos foram beneficiados por toda uma gama de produtos eletrodomésticos novos com preços subvencionados pelo Estado, ou seja, abaixo de seu valor de mercado.Atualmente, a economia de energia que foi conseguida permite enfrentar a demanda da população, o que explica a eliminação progressiva das restrições quanto à aquisição de novos aparelhos eletrodomésticos, computadores e outros, como reprodutores de vídeo. Assim, os cubanos têm acesso a uma seleção mais ampla de bens de consumo. Portanto, as limitações tinham como explicação apenas um fator econômico, isto é, uma produção de energia insuficiente. A imprensa ocidental não se incomodou em abordar estes elementos ao tratar do tema.A mídia apressou-se em sublinhar, com razão, que muitos cubanos não poderiam ter acesso aos artigos à venda pelo valor de mercado devido ao seu elevado custo com respeito ao salário relativamente modesto vigente em Cuba. Não obstante, esta realidade concerne a uma parte imensa da população mundial, que vive na pobreza e cujas principais preocupações não são adquirir um reprodutor de DVD ou um microondas, mas, sim, comer três vezes por dia e ter acesso a saúde e educação, angústias inexistentes em Cuba.Assim, segundo o último relatório da Organização das Nações Unidas para a Alimentação e a Agricultura (FAO) sobre a insegurança alimentar no mundo, 854 milhões de pessoas em todo o planeta, entre elas 9 milhões nos países industrializados, sofrem de desnutrição (3). No continente americano somente três países já alcançaram os objetivos da Cúpula Mundial da Alimentação 2015: Cuba, Guiana e Peru (4). Segundo a Unesco, atualmente, um de cada cinco adultos no mundo não é alfabetizado, ou seja 774 milhões de pessoas, e 74 milhões de crianças carecem de escolas (5). Segundo a Unicef, a cada dia mais de 26.000 crianças menores de cinco anos morrem de fome ou de doenças curáveis, ou seja 9,7 milhões de crianças por ano (6). Nenhum cubano faz parte destas listas.As multinacionais da informação sempre evitam apresentar a realidade cubana em relação com a problemática latino-americana e do Terceiro Mundo, porque ela é edificante e leva, inevitavelmente, a fazer comparações.Os celulares O acesso ao celular também se ampliou em Cuba por diversas razões (7). A primeira é de ordem econômica e a segunda de ordem tecnológica. O acesso ao celular tornou-se massificado em todo o mundo ocidental nos anos 90.Nessa época, Cuba tinha outras prioridades diferentes à de proporcionar acesso ao telefone celular para a população. Os desafios guardavam relação com a alimentação, o transporte e a moradia. O problema alimentar atualmente foi resolvido em Cuba. No que se refere ao transporte, está sendo solucionado, principalmente graças à importação de numerosos ônibus da China. Quanto à moradia, trata-se, sem dúvida, da principal dificuldade que a população enfrenta.Neste caso, também não se trata de uma especificidade cubana. A realidade é a mesma em qualquer cidade do primeiro mundo, como Paris, com uma diferença: em Cuba o problema é a falta de moradia devido às sanções econômicas norte-americanas, que impedem a construção de 100.000 habitações adicionais por ano, enquanto que os parisienses estão diante de uma absurda aberração. Com efeito, mais de 100.000 moradias, que pertencem às classes acomodadas, estão vazias em Paris, enquanto 100.000 famílias estão procurando um teto. Apesar de que existe uma lei para requisitar essas vivendas, ela nunca é aplicada pelas autoridades. Em Cuba, os cidadãos jamais aceitariam semelhante escândalo (8).Na França, segundo o Ministério da Habitação, 1,6 milhão de pessoas vivem em moradias sem chuveiro ou sem banheiro. Mais de um milhão de franceses estão alojados em “situação de superpopulação acentuada”, 550.000 pessoas vivem em pensões, entre elas 50.000 crianças, 146.000 em caravanas e 86.000 são “sem-teto” e moram na rua (9). Contudo, em torno de dois milhões de moradias estão vazias na França, 136.554 delas em Paris. Outra aberração: somente 32.000 moradias em Paris pagam o imposto sobre moradias vazias, quando deveria ser pago por mais de 136.000. Mas as autoridades preferem fechar os olhos (10).Voltando ao celular, o segundo obstáculo era uma questão tecnológica (ainda é o caso para o acesso a Internet, porque Washington impede Cuba de se conectar ao cabo de fibra óptica do Estreito da Flórida, que lhe pertence). Cuba dispõe de uma conexão por satélite limitada que, por outro lado, é extremamente cara. Essa é a razão pela qual o acesso ao telefone celular era restrito. Com a melhora da situação econômica, a oferta foi ampliada para toda a população, ainda que as tarifas continuem sendo muito elevadas. Neste caso, ocorre a mesma coisa: apesar de que o celular está amplamente difundido no Ocidente, continua sendo um luxo para muitos habitantes do planeta.O acesso aos hotéis Quanto aos hotéis, a mídia também demonstrou parcialidade. Até 1º de abril de 2008, o acesso aos hotéis de luxo não estava proibido, como afirmou a imprensa ocidental, mas limitado. Aqui, a explicação é de ordem social e econômica.Nos anos 1990, o ressurgimento de um fenômeno que foi erradicado quando triunfou a Revolução, em 1959, preocupava muito as autoridades: a prostituição. Para tentar conter este problema, que surgiu das dificuldades que os cubanos tiveram que enfrentar, o governo de Havana decidiu limitar o acesso da população às infra-estruturas turísticas. Graças ao bom desempenho dos trabalhadores sociais e à melhora da situação econômica, este fenômeno social, se bem ainda não desapareceu completamente, foi atenuado substancialmente.A segunda explicação é econômica. De fato, com o desenvolvimento vertiginoso do turismo, a partir dos anos 1990, a capacidade hoteleira cubana mostrou ser insuficiente para acolher ao mesmo tempo os estrangeiros e os cubanos. As autoridades privilegiaram a acolhida dos estrangeiros, principalmente na alta temporada, partindo de um raciocínio econômico: um turista cujas demandas de veraneio não fosse possível satisfazer gastaria seu dinheiro fora do país, o que geraria um capital ocioso significativo para a economia do país. Em compensação, a pequena categoria de cubanos que possui os recursos necessários para pagar por um hotel de luxo gastaria seu dinheiro em outros setores, mas ele ficaria no país.A imprensa ocidental também ficou apenas nas tarifas relativamente proibitivas para o cubano médio. Segundo a Associated Press, são pouquíssimos os cubanos que podem pagar por um quarto que custa 173 dólares por noite no hotel “Ambos Mundos” (quatro estrelas) da Havana Velha, um dos estabelecimentos turísticos mais prestigiosos da capital, que era o preferido de Ernest Hemingway (11). E tem razão. Mas a imprensa esquece, mais uma vez, de mencionar que o acesso a um quarto de um hotel de renome é um luxo para todos os habitantes do Terceiro Mundo e para uma ampla categoria de cidadãos que vivem em países desenvolvidos. Apenas como comparação, quantos franceses, por exemplo, podem pagar por um quarto de 730 euros (o mais barato) no Ritz (cinco estrelas) de Paris? (12)Liberalização econômica? Será que estas reformas levam para uma certa liberalização da economia cubana? (13). Seria um erro pensar isso. É preciso lembrar que nos anos 1980 os cubanos tinham acesso com abundância aos bens de consumo. Trata-se simplesmente de que estão suprimindo restrições que já não têm razão de ser. Outras deveriam vir a seguir, muito em breve. Assim, o governo decidiu alugar terras ociosas para pequenos produtores privados com a finalidade de aumentar a produção agrícola, no momento em que os preços das matérias primas atingiram picos históricos (14).As verdadeiras mudanças em Cuba ocorreram em 1959 e a ilha está em constante evolução desde essa data. Lá, a crítica é constante e basta com ler a imprensa nacional para ficar convencido disso, especialmente os jornais Juventud Rebelde e Trabajadores, cujo tom é extremamente incisivo e sem concessões. Há uma vontade política inegável, entre os altos dirigentes, de promover o debate. A própria filha de Raúl Castro, Mariela Castro, sexóloga que defende os direitos das minorias gay e lésbica, advogou em favor do “socialismo, porém com menos proibições” (15). Mas a mídia finge não perceber esta realidade. Contrariamente ao que pretendem —e esperam— as multinacionais da informação, Washington e a União Européia, os cubanos não voltarão para uma economia de mercado, senão que vão continuar se esforçando na construção de um socialismo moderno, mais justo e mais racional.Notas(1) Will Weissert, «Raul´s Reforms May Strengthen Communism», 2 de abril de 2008.(2) Will Weissert, «Castro Reforms: Dvd´s, Farms for Cubans», The Associated Press, 2 de abril de 2008.(3) Organisation des Nations unies pour l´alimentation et l´agriculture, L´état de l´insécurité alimentaire dans le monde 2006 (Rome : FAO, 2006), p. 8.(4) Ibid., p. 17.(5) Institut de statistique de l´UNESCO, «Alphabétisme», 9 de abril de 2007. http://www.uis.unesco.org/ev.php?URL_ID=6401&URL_DO=DO_TOPIC&URL_SECTION=201 (site consultado em 15 de abril de 2008).(6) UNICEF, A situation des enfants dans le monde 2008. A survie de l´enfant (New York, décembre 2007), p. 1.(7) The Associated Press, «Cuban Restrictions Eased By Raul Castro», 2 de abril de 2008, Will Weissert, «Cubanos hacen largas filas para comprar celulares», The Associated Press/El Nuevo Herald, 15 de abril de 2008.(8) Droit au Logement, «Le logement em chiffres: exclusions et inégalités», 2002. http://www.globenet.org/dal/index.php3?page=SOMMSITUCHIF (site consultado em 15 de abril de 2008).(9) Ministère du Logement, de l'Equipement et des Transports, Questionnaire da Commission da Production et des Echanges. Projet de LFI pour 2001 & INSEE, enquête 2001 sur a population «fréquentant les services d'hébergement et les distributions de repas chauds», in Droit au Logement, op. cit.(10) Droit au Logement, op. cit.(11) Will Weissert, «Thanks Raul: Cubans Can Stay in Hotels», The Associated Press, 1 de abril de 2008.(12) Hôtel Ritz Paris, «Tarifs».http://www.ritzparis.com/jump_to.asp?id_target=1250&id_lang=1 (site consultado em 15 de abril de 2008).(13) Reuters, «Les téléphones portables désormais autorisés à Cuba», 14 de abril de 2008.(14) The Associated Press, «Cuba Lends private Farmers Unused Land», 1 de abril de 2008; Andrea Rodriguez & Will Weissert, «Communiste Cuban Solution: Private Farms», 5 de abril de 2008.(15) Alessandra Coppola, «Socialismo, ma com meno proibizioni», Corriere della Sera, 27 de março de 2008.Salim Lamrani é profesor, escritor e jornalista francés especialista nas relações entre Cuba e Estados Unidos. Já publicou os libros: "Washington contre Cuba" (Pantin: Le Temps des Cerises, 2005), "Cuba face à l´Empire" (Genève: Timeli, 2006) e "Fidel Castro, Cuba et les Etats-Unis" (Pantin: Le Temps des Cerises, 2006). Acaba de publicar "Double Morale. Cuba, l´Union européenne et les droits de l´homme" (Paris: Editions Estrella, 2008).

MAIO DE 68 E A HISTÓRIA SEM FIM

Maio de 68 e a história sem fim
Para Guy Debord, toda tentativa de inventariar Maio de 68 não pode passar de gracejos ditos em jornal. Não há inventário nem balanço, porque não há óbito do seu sentido: saber o que se faz e ser leal ao que se sabe. Os protagonistas de Maio de 68 sabiam o que estavam fazendo e foram leais ao que sabiam. Esse compromisso faz sentido ontem, hoje e sempre. (Katarina Peixoto)


“Os patrões e o Estado não podem e não querem mais pagar. Não passa pela cabeça de ninguém a idéia de que eles possam desaparecer. Os filhos das cidades, esses palestinos do espetáculo triunfante, sabem que nada têm a perder nem a esperar do mundo com a forma que ele está adquirindo. (...) Não foram eles que escolheram sua condição e têm razão em não apreciá-la. Mas aqueles que os colocaram lá sentirão, e já começaram a sentir, a sua dor.” Mustapha Khayati, A Miséria do Meio Estudantil, Strassbourg, 1966A abertura do inventário de Maio 68 constitui fraude porque seu atestado de óbito insiste, por incrível que pareça, em não existir. Essa fraude tem duas facetas que para os protagonistas daquelas “jornadas” - expressão de Guy Debord - muito são parecidas. A faceta dos derrotados na Guerra Fria (com poucas variantes não-nostálgicas nem cínicas), olha para Maio de 68 chocando-se contra si mesma. Consumada a sua juventude, consumados estariam os sonhos e compromissos há quarenta anos inalienáveis e inegociáveis; passados. A triunfante (com poucas variantes não-genocidas nem grotescas), olha para Maio de 68 como mais um dos grandes males e erros “superados” pelo pacote delirante do fim da história. Stalinistas de ontem crêem na democracia consensual e por ela sentem-se responsáveis, quando menos a título de confortável auto-crítica. Já capitalistas e liberais de ocasião buscam fazer a medida dos acontecimentos desaparecer, ao proclamar – em vão - a destruição da história. E Maio de 68 continua a obsedá-los, a espreitá-los.Talvez o cinema seja a expressão mais lúcida frente ao “segredo de Estado” em que se converteu esse levante, na mídia e nos demais “aparelhos” do espetáculo triunfante. Precisamente porque o filme sobre Maio de 68 ainda não foi feito. Alguém pode objetar, sacando a Nouvelle Vague. Pode-se dizer sem alarde, então, que Godard cinematografa Maio de 68 sempre e que isso, mais do que um dado que ilumina seu cinema, explica que ele sabe por que inventariar esse período é impossível. Guy Debord, filósofo da anti-alienação, vanguarda parisiense do período e também portador de uma das mais lúcidas paranóias tornadas públicas lembrou, nos Comentários à Sociedade do Espetáculo (1984) que “há vinte anos nada é tao dissimulado com mentiras dirigidas quanto a história de maio de 1968”, e que, “no entanto, lições úteis foram tiradas de alguns estudos desmistificados a respeito dessas jornadas e suas origens; mas é segredo de Estado”. O que pode ser a desmistificação desse segredo de Estado? Quem tem e onde reside a autoridade para falar sobre esse acontecimento, sem mistificá-lo? E que poder é esse que deve, para que as coisas continuem como estão, ser mantido como segredo de Estado? A resposta está na origem das jornadas a que Debord se refere; quer dizer, na sua origem não-temporal, naquilo que uma certa tradição filosófica reputa como sendo o sentido e o fundamento de um momento histórico. Sentido e fundamento não porque se pressupõe um fim na história e um destino dado a despeito das consciências, mas porque é das suas próprias naturezas a característica de tornar uma história possível. Assim, Maio de 68 não habita a história, mas persevera como uma condição para que a história seja habitada, com sentido – coisa que não se confunde com finalidade – e fundamento. E por que, qual o segredo dessa condição Maio de 68?Em primeiro lugar, porque o seu sentido emerge como resultado prático de um compromisso ético que não depende estritamente da história para existir. Compromisso intransigente com a verdade, expressa como a correspondência escolástica e prática entre aquilo que se pensa sobre as coisas e aquilo que as coisas são, também – mas nunca somente – porque estão sendo pensadas por quem tem esse compromisso. Essa correspondência, assim, só ocorre quando se sabe o que se está fazendo e o que se é; na vida, na Política, na história.A verdade, nesse contexto, tem uma espécie de teoria: a teoria da anti-alienação, da tomada de consciência de que se é parte de um todo que lhe diz respeito e que, sobretudo, depende de si, inclusive para existir. A verdade temerária de Maio de 68, portanto, é que seus protagonistas sabiam o que estavam fazendo e eram leais ao que sabiam. Em toda parte, França, Brasil, Cuba, Chile, Congo, Los Angeles e Tchecoslováquia, eles sabiam o que estavam fazendo, quem combatiam e o que queriam. Não é preciso filosofar para perceber que esse compromisso faz sentido ontem, hoje e sempre e que, portanto, não é destrutível pela marcha histórica, seja em que perspectiva for esta considerada.Em segundo, porque esse sentido a-temporal de compromisso ético frente ao que se sabe e ao que se quer estabeleceu um marco para uma certa perspectiva histórica que não tem fim. Em vez da crença numa finalidade, a constituição de uma razão, de um porquê, lutar, resistir à barbárie e enfrentar todas as formas de opressão. Uma razão para fazer história e para que esta seja habitada com verdade e ética. Mais do que o resultado de um somatório de consciências rebeldes pelo mundo, Maio de 68 – isto é, aquela década – persevera como o fundamento de uma história consciente, espécie de lição de incerteza e de abertura.Em 68, especialmente, aconteceu aquilo que Kant chamou de “acaso feliz”, se assim se pode dizer: aqui, um encontro da consciência atenta e leal a si com a marcha dos acontecimentos que a determinam e ultrapassam. A partir desse encontro, não há, mais, fim da história, nem fechamento arbitrário de época, tampouco sol mágico a nascer socialista. Descrever Maio de 68 sob a rubrica do acaso não deve assustar nem indignar. A melhor definição de acaso (aristotélica) é a de encontro de duas séries causais. Aqui, essas duas séries podem ser tomadas como a tomada de consciência de uma juventude e de um pensamento livre com a derrocada de um mundo político e social opressor, violento, colonialista, ditatorial, refém do encarceramento ideológico e de seus monstros. Acaso feliz: as consciências libertas da alienação burocrática, espetacular e mercantil combatem, sem tréguas nem negociação, a ordem de coisas que as esmaga e lhes rouba o tempo. ordem de coisas que, esta sim, ficou para a história como passado, porque não foi mais a mesma, apesar do que lhe seguiu imediatamente. Como se sabe, em boa tradição fundamento é um princípio divisório; um princípio que aqui está sendo tomado como condição para uma história, para uma outra história. Com base em quê, além dessas notas teóricas extravagantes, pode-se dizer que esse sentido e esse fundamento de Maio de 68 não estão mortos?Aí vai um pequeno rol de sugestões não-aleatórias: a Palestina segue ocupada desde 67 e recentemente um ministro israelense prometeu aos habitantes de Gaza um Shoah. O Iraque está ocupado depois de uma invasão militar de proporções históricas devastadoras. A África agoniza entre guerras, fundamentalismo religioso e doenças que dão lucro a grandes corporações multinacionais. Na América Latina, a elite crioula boliviana não aceita que o país seja dono de seus recursos naturais e menos ainda ser governada por um índio cocalero e Cuba está a extinguir a pena de morte. Um dono de império comunicacional tomou a Itália para si e Sarkozy é eleito presidente da França. Os lacaios do latifúndio continuam roubando, tendo privilégios e matando impunemente. Tony Gatlif faz cinema e Godard também, segue fazendo. Um negro, advogado dos direitos civis, senador que votou contra a invasão do Iraque, será eleito presidente do império, contra Bush e as grandes corporações e seus lobbies.A democracia tem dado provas de que é o respeito e o enfrentamento de conflitos, e não o consenso, o que a caracteriza substancialmente. “As coisas estão no mundo”, como diz Paulinho da Viola, e Maio de 68, também. Saber o que se faz e ser leal ao que se sabe, tornar o acaso um ponto que impossibilita o retorno e, então, torna a história possível. A mais luminosa, generosa e livre possibilidade. É por isso que toda tentativa de inventariar Maio de 68 não pode passar, também nas palavras de Debord, de gracejos ditos em jornal. Não há balanço do que não se pode inventariar, porque não há óbito do seu sentido nem do seu fundamento.Por mais difícil e obscura que tenha sido a quadra recente da história, em termos de derrotas e das vitórias cinzentas e mediadas para aquém dos nossos desejos; e que o racismo e a tortura tenham se tornado práticas globais; por mais que a tragédia e as explosões de corpos e países e povos abundem em nossas televisões, corações e mentes; e que o roubo intermitente de sonhos exija vigência, Maio de 68 está aí, a obsedar, a espreitar. A continuação do texto – um dos mais célebres que ajudaram a deflagrar esse levante – citado na abertura deste, meu, termina com um lembrete profético para os dias que correm e por isso também merece ser referido: “A potência do espetáculo atual reside no fato de que ele governa não apenas o mundo que ele produz, mas também os sonhos que as suas vítimas criam para escapar de seu reinado. Esses sonhos de hoje não passam, na realidade, dos pesadelos de amanhã. Pouco importa (...), o sistema dominante continuará a se construir contra todos. Eles podem optar por se tornarem cúmplices de seu próprio infortúnio. Mas devem pelo menos saber que não receberão nenhuma recompensa”. O grifo é meu. Por fim, em 68 eu não existia. Vinte anos depois, adolescente, descobri que uma pessoa muito admirada e amada da família foi barbaramente torturada pelos agentes da ditadura militar brasileira. Dez anos mais tarde, conheci Flavio Koutzii e pouco depois Raul Pont. Na semana que passou, no Senado Federal, percebi e entendi por que ter Dilma Rousseff na Casa Civil do Governo Brasileiro é um valor em si mesmo; quer dizer, que essas pessoas e vidas e dignidades fazem sentido e têm fundamento, para uma outra história, contra o reino do espetáculo triunfante. Este texto é para vocês porque, nos momentos de maior ira e irracionalidade, em barricadas ou sob tortura e diante das mentiras que assolam os dias e noites que correm, algumas coisas jamais foram, nem serão, destruídas. Entre essas coisas, com o perdão do atrevimento, está uma certa maneira de predicar a existência. Uma maneira de existir, sem o menor risco de conivência com a mesquinhez; uma maneira de existir com sentido e com razão. Então, eu existo, também por causa de Maio de 68.
KATARIAN PEIXOTO é doutoranda em Filosofia na Universidade Federal do Rio Grande do Sul.

EM NOME DE 1968

Em nome de 1968!
O balanço de 1968 continua sendo muito positivo. Não se consegue apagar o que aconteceu naquele ano, bem como, um pouco antes e depois. O final da década de 1960 e o início da de 1970 ficaram marcados para sempre. O esforço para que se esqueçam dos fatos, comportamentos e propostas da época, não é pequeno.
Luís Carlos Lopes
Uma das utopias da geração mais combativa do passado recente brasileiro foi o de chegar a comemorar o dia onde ninguém mais seria preso, torturado ou assassinado por pensar diferente do Estado. O mesmo não aconteceria com os que não concordassem com seus patrões e outros proprietários ou, simplesmente, fossem jovens, negros, pobres e favelados. Esperou-se, durante décadas, pelo fim da censura e pelo direito da livre expressão em todos os domínios da vida. Acreditou-se que os monstros que destruíram os sonhos de felicidade e de liberdade das multidões, que se expressavam em passeatas e no cotidiano social, acabariam sendo colocados no limbo da história. Quantos não abominaram a fome de seus compatriotas? Não só a falta do alimento de todo dia, mas também a inexistência de acesso fácil a bens simbólicos de qualidade. Quantos não reclamavam que não eram sequer donos de seus corpos e de suas sexualidades, tendo que prestar contas a estranhos sobre problemas estritamente pessoais? Quantos não desejaram que o divórcio fosse livre e acessível e que a mentira do casamento sagrado, perfeito e obrigatório fossem levados para um passado de opressão, a esquecer? Quantos nunca aceitaram a hipocrisia social, que tudo encobre e mantém em seu lugar?O movimento de 1968, em todo mundo, foi anárquico, dividido nas mais diversas facções e não raro, paradoxal. Teve significados políticos distintos em cada lugar do planeta. Além do ano, o que o mais o unifica é o grito de revolta juvenil oriunda, sobretudo, das classes médias estudantis. Seus principais atos foram o da mobilização, em jornadas de rua e nas instituições, dos jovens estudantes letrados e politizados, em uma escala que, infelizmente, ainda não se repetiu. Estes jovens queriam mudar o mundo. Queriam o fim da guerra do Vietnã, aceitavam a idéia da autodeterminação dos povos e torciam pela vitória revolucionária nas guerras anticoloniais. Desejavam mais verbas para o ensino e menos investimentos militares. Imaginavam um mundo sem guerras injustas e sem a suprema exploração do homem pelo homem.Essas jornadas eram libertárias. Por todo lado, as questões relativas ao amor e ao sexo, aprisionadas pelos tabus da época, eram mencionadas e se buscavam, na prática, soluções efetivas. Desconstruíam a família tradicional baseada nos laços de sangue e nos interesses das lógicas oportunistas das pensões e das heranças. Queriam algo novo em suas vidas. Por razões óbvias, isto era mais comum nos países mais ricos. Nos pobres, as lutas se radicalizaram, a partir das terríveis questões políticas e sociais da época. Criticavam o autoritarismo de Estado, por onde ele se instalava. Apesar disto tudo, havia um fio que unia os jovens estudantes de todo mundo. Eles se auto-admiravam e pensavam ter superado a dialética tradicional, opondo com vigor os jovens aos velhos. Entretanto, alguns militantes mais velhos acabaram sendo assimilados e cantados como ícones dessa mesma juventude. A luta entre gerações ficou no seu exato lugar, no das diferenças de concepção de mundo e do que fazer.Os estudantes de 1968 acreditavam que poderiam superar as forças conservadoras, a partir de seus brados de revolta e de suas nascentes organizações. Eram, por toda parte, milhares e contavam, em um primeiro momento, com a simpatia de grandes parcelas das classes médias e pobres. O consumo ainda não havia poluído suas cabeças e nem as indústrias culturais tinham o poder de fogo, conseguido mais recentemente. O espetáculo estava começando, como pressentiu Debord, ele mesmo, um soixante-huitard. A comunicação direta era ainda muito forte. As mídias industriais de ponta, apesar de crescentes, não tinham ainda a hegemonia, que seria conquistada nos anos subseqüentes. A miséria sempre horrorizou uma parte significativa das mesmas pessoas que nunca a aceitaram como um fato natural. Alguns se contentaram com a velha solidariedade individual. Outros se revoltaram e quiseram que as estruturas que a produz fossem modificadas. Propuseram-se a contribuir para alterar a ordem do mundo e não se importaram de pagar o preço de suas rebeldias. Muitos não hesitaram em se aproximar do fogo do poder e defenderam, abertamente, o uso da força contra a brutalidade do sistema. Pensavam, idilicamente, que seriam capazes de vencer, porque tinham certeza de que estavam moralmente certos. A ignorância sempre provocou reação similar. Alguns sempre a perceberam como uma forma de dominação e entenderam sua monstruosidade. O não-saber é algo tão produzido com o saber. Descobriram que o engendramento do primeiro era fundamental para manter o controle, transformando cidadãos em consumidores e construindo véus impenetráveis para as parcas possibilidades da visão mais ingênua do mundo. As artes foram revolucionadas, aproveitando-se alguns nichos vazios das indústrias culturais. Foram produzidos artefatos que questionavam ou revolucionavam tudo que estava previamente estabelecido.A ordem racial brasileira foi igualmente questionada por negros, mestiços, brancos e descendentes de ameríndios. Isto ocorreu fortemente amparado no incrível movimento dos direitos civis dos afrodescendentes dos EUA. O brado de Luther King, que advertia a todos que “tinha um sonho”, espalhou-se por onde a questão racial era significativa. Os mais conscientes a entenderam como uma forte opressão que ocuparia o centro da vida social brasileira. Outros disseram que ela era parte do ‘pacote’ social, e que a discriminação só poderia cessar ou diminuir, reformatando-se a sociedade globalmente. A objetificação da mulher, o sexismo, e a homofobia estarreceram a muitos da mesma geração. Não poucos imaginaram uma sociedade onde mulheres e homens vivessem em paz, baseada no respeito mútuo e na tolerância às várias faces da sexualidade humana. É verdade que a compreensão deste problema não foi hegemônica, mas esteve presente, a partir dos notáveis acontecimentos de 1968. Antes, a mesma questão não era quase mencionada.Uma das novidades deste ano foi a da ruptura parcial com o socialismo real. Lutar contra o sistema deixou de ser, como nas décadas anteriores, defender a ortodoxia soviética. Lá começaram a desaparecer as ilusões com a política externa e interna soviéticas. Acreditavam-se mais nos chineses e nos cubanos. Alguns anos depois, as ilusões com a China deram com os burros n’água. As com Cuba foram protegidas por efeito do cruel bloqueio, que ainda está em vigor. E, assim, sucessivamente. Pouco a pouco, as lutas iriam deixar de ser acaudilhadas a interesses de Estado específicos. A invasão russa da Tcheco-Eslováquia, em 1968, jogou uma pá de cal nos sonhos benfazejos do comunismo internacional. É verdade que muitos continuaram acreditando. Mas, neste ano, as dúvidas, que vinham da década de 1950, passaram a crescer. Dentro da lógica geral de opor o novo ao velho, as crenças que vinham da Revolução russa, em 1917, do início de uma nova era, passaram a ser revistas e relativizadas. Neste sentido, a bipolaridade internacional deixou de fazer sentido. Os jovens saíram à busca de caminho alternativos. O mundo ficou mais complexo e as lutas adquiriram novas cores. O balanço de 1968 continua sendo muito positivo. Não se consegue apagar o que aconteceu naquele ano, bem como, um pouco antes e depois. O final da década de 1960 e o início da de 1970 ficaram marcados para sempre. O esforço para que se esqueçam dos fatos, comportamentos e propostas da época, não é pequeno. Durante 2008, quando se completam 40 anos, fez-se de tudo para se diminuir ou turvar sua importância. Algumas estratégias ficaram bem delimitadas nas grandes mídias. Uma foi a de procurar pessoas que estiveram lá, mas que, hoje, negaram completamente ou parcialmente suas convicções. Estes foram os que tiveram mais voz nas mídias do mundo ocidental. Outra, muito apreciada, foi a de enfatizar os aspectos culturais e comportamentais da época, apagando os de natureza política. Há um sério esforço para impedir que as novas gerações saibam o que realmente se deu naqueles anos.O impacto de 1968 na vida política e social do Brasil foi e continua sendo imenso. Ainda hoje, imagens fixas e em movimento da época seduzem quem não o viveu. Fazem lembrar os que lá estavam. É verdade que o mundo de hoje é muito diferente, que algo como ocorreu ali, não seria mais possível. Todavia, muitas das razões que inflamaram o coração dos melhores jovens da época continuam, infelizmente, iguais ou parecidas. A indignação daquele tempo ainda existe. As possibilidades de expressá-la é que estão bastante reduzidas. É como se a polícia tivesse se mudando para dentro dos corações e mentes. Tem se visto alguns episódios da vida estudantil que lembram esse passado. De algum modo, ele está presente como um espectro que assusta os conservadores de sempre. No cinismo que portam, eles logo lembram da tortura e da morte, que foram suas armas preferidas, usadas para tentar tirar a rebeldia do centro dos corações juvenis.
Luís Carlos Lopes é professor.