Em nome de 1968!
O balanço de 1968 continua sendo muito positivo. Não se consegue apagar o que aconteceu naquele ano, bem como, um pouco antes e depois. O final da década de 1960 e o início da de 1970 ficaram marcados para sempre. O esforço para que se esqueçam dos fatos, comportamentos e propostas da época, não é pequeno.
Luís Carlos Lopes
Uma das utopias da geração mais combativa do passado recente brasileiro foi o de chegar a comemorar o dia onde ninguém mais seria preso, torturado ou assassinado por pensar diferente do Estado. O mesmo não aconteceria com os que não concordassem com seus patrões e outros proprietários ou, simplesmente, fossem jovens, negros, pobres e favelados. Esperou-se, durante décadas, pelo fim da censura e pelo direito da livre expressão em todos os domínios da vida. Acreditou-se que os monstros que destruíram os sonhos de felicidade e de liberdade das multidões, que se expressavam em passeatas e no cotidiano social, acabariam sendo colocados no limbo da história. Quantos não abominaram a fome de seus compatriotas? Não só a falta do alimento de todo dia, mas também a inexistência de acesso fácil a bens simbólicos de qualidade. Quantos não reclamavam que não eram sequer donos de seus corpos e de suas sexualidades, tendo que prestar contas a estranhos sobre problemas estritamente pessoais? Quantos não desejaram que o divórcio fosse livre e acessível e que a mentira do casamento sagrado, perfeito e obrigatório fossem levados para um passado de opressão, a esquecer? Quantos nunca aceitaram a hipocrisia social, que tudo encobre e mantém em seu lugar?O movimento de 1968, em todo mundo, foi anárquico, dividido nas mais diversas facções e não raro, paradoxal. Teve significados políticos distintos em cada lugar do planeta. Além do ano, o que o mais o unifica é o grito de revolta juvenil oriunda, sobretudo, das classes médias estudantis. Seus principais atos foram o da mobilização, em jornadas de rua e nas instituições, dos jovens estudantes letrados e politizados, em uma escala que, infelizmente, ainda não se repetiu. Estes jovens queriam mudar o mundo. Queriam o fim da guerra do Vietnã, aceitavam a idéia da autodeterminação dos povos e torciam pela vitória revolucionária nas guerras anticoloniais. Desejavam mais verbas para o ensino e menos investimentos militares. Imaginavam um mundo sem guerras injustas e sem a suprema exploração do homem pelo homem.Essas jornadas eram libertárias. Por todo lado, as questões relativas ao amor e ao sexo, aprisionadas pelos tabus da época, eram mencionadas e se buscavam, na prática, soluções efetivas. Desconstruíam a família tradicional baseada nos laços de sangue e nos interesses das lógicas oportunistas das pensões e das heranças. Queriam algo novo em suas vidas. Por razões óbvias, isto era mais comum nos países mais ricos. Nos pobres, as lutas se radicalizaram, a partir das terríveis questões políticas e sociais da época. Criticavam o autoritarismo de Estado, por onde ele se instalava. Apesar disto tudo, havia um fio que unia os jovens estudantes de todo mundo. Eles se auto-admiravam e pensavam ter superado a dialética tradicional, opondo com vigor os jovens aos velhos. Entretanto, alguns militantes mais velhos acabaram sendo assimilados e cantados como ícones dessa mesma juventude. A luta entre gerações ficou no seu exato lugar, no das diferenças de concepção de mundo e do que fazer.Os estudantes de 1968 acreditavam que poderiam superar as forças conservadoras, a partir de seus brados de revolta e de suas nascentes organizações. Eram, por toda parte, milhares e contavam, em um primeiro momento, com a simpatia de grandes parcelas das classes médias e pobres. O consumo ainda não havia poluído suas cabeças e nem as indústrias culturais tinham o poder de fogo, conseguido mais recentemente. O espetáculo estava começando, como pressentiu Debord, ele mesmo, um soixante-huitard. A comunicação direta era ainda muito forte. As mídias industriais de ponta, apesar de crescentes, não tinham ainda a hegemonia, que seria conquistada nos anos subseqüentes. A miséria sempre horrorizou uma parte significativa das mesmas pessoas que nunca a aceitaram como um fato natural. Alguns se contentaram com a velha solidariedade individual. Outros se revoltaram e quiseram que as estruturas que a produz fossem modificadas. Propuseram-se a contribuir para alterar a ordem do mundo e não se importaram de pagar o preço de suas rebeldias. Muitos não hesitaram em se aproximar do fogo do poder e defenderam, abertamente, o uso da força contra a brutalidade do sistema. Pensavam, idilicamente, que seriam capazes de vencer, porque tinham certeza de que estavam moralmente certos. A ignorância sempre provocou reação similar. Alguns sempre a perceberam como uma forma de dominação e entenderam sua monstruosidade. O não-saber é algo tão produzido com o saber. Descobriram que o engendramento do primeiro era fundamental para manter o controle, transformando cidadãos em consumidores e construindo véus impenetráveis para as parcas possibilidades da visão mais ingênua do mundo. As artes foram revolucionadas, aproveitando-se alguns nichos vazios das indústrias culturais. Foram produzidos artefatos que questionavam ou revolucionavam tudo que estava previamente estabelecido.A ordem racial brasileira foi igualmente questionada por negros, mestiços, brancos e descendentes de ameríndios. Isto ocorreu fortemente amparado no incrível movimento dos direitos civis dos afrodescendentes dos EUA. O brado de Luther King, que advertia a todos que “tinha um sonho”, espalhou-se por onde a questão racial era significativa. Os mais conscientes a entenderam como uma forte opressão que ocuparia o centro da vida social brasileira. Outros disseram que ela era parte do ‘pacote’ social, e que a discriminação só poderia cessar ou diminuir, reformatando-se a sociedade globalmente. A objetificação da mulher, o sexismo, e a homofobia estarreceram a muitos da mesma geração. Não poucos imaginaram uma sociedade onde mulheres e homens vivessem em paz, baseada no respeito mútuo e na tolerância às várias faces da sexualidade humana. É verdade que a compreensão deste problema não foi hegemônica, mas esteve presente, a partir dos notáveis acontecimentos de 1968. Antes, a mesma questão não era quase mencionada.Uma das novidades deste ano foi a da ruptura parcial com o socialismo real. Lutar contra o sistema deixou de ser, como nas décadas anteriores, defender a ortodoxia soviética. Lá começaram a desaparecer as ilusões com a política externa e interna soviéticas. Acreditavam-se mais nos chineses e nos cubanos. Alguns anos depois, as ilusões com a China deram com os burros n’água. As com Cuba foram protegidas por efeito do cruel bloqueio, que ainda está em vigor. E, assim, sucessivamente. Pouco a pouco, as lutas iriam deixar de ser acaudilhadas a interesses de Estado específicos. A invasão russa da Tcheco-Eslováquia, em 1968, jogou uma pá de cal nos sonhos benfazejos do comunismo internacional. É verdade que muitos continuaram acreditando. Mas, neste ano, as dúvidas, que vinham da década de 1950, passaram a crescer. Dentro da lógica geral de opor o novo ao velho, as crenças que vinham da Revolução russa, em 1917, do início de uma nova era, passaram a ser revistas e relativizadas. Neste sentido, a bipolaridade internacional deixou de fazer sentido. Os jovens saíram à busca de caminho alternativos. O mundo ficou mais complexo e as lutas adquiriram novas cores. O balanço de 1968 continua sendo muito positivo. Não se consegue apagar o que aconteceu naquele ano, bem como, um pouco antes e depois. O final da década de 1960 e o início da de 1970 ficaram marcados para sempre. O esforço para que se esqueçam dos fatos, comportamentos e propostas da época, não é pequeno. Durante 2008, quando se completam 40 anos, fez-se de tudo para se diminuir ou turvar sua importância. Algumas estratégias ficaram bem delimitadas nas grandes mídias. Uma foi a de procurar pessoas que estiveram lá, mas que, hoje, negaram completamente ou parcialmente suas convicções. Estes foram os que tiveram mais voz nas mídias do mundo ocidental. Outra, muito apreciada, foi a de enfatizar os aspectos culturais e comportamentais da época, apagando os de natureza política. Há um sério esforço para impedir que as novas gerações saibam o que realmente se deu naqueles anos.O impacto de 1968 na vida política e social do Brasil foi e continua sendo imenso. Ainda hoje, imagens fixas e em movimento da época seduzem quem não o viveu. Fazem lembrar os que lá estavam. É verdade que o mundo de hoje é muito diferente, que algo como ocorreu ali, não seria mais possível. Todavia, muitas das razões que inflamaram o coração dos melhores jovens da época continuam, infelizmente, iguais ou parecidas. A indignação daquele tempo ainda existe. As possibilidades de expressá-la é que estão bastante reduzidas. É como se a polícia tivesse se mudando para dentro dos corações e mentes. Tem se visto alguns episódios da vida estudantil que lembram esse passado. De algum modo, ele está presente como um espectro que assusta os conservadores de sempre. No cinismo que portam, eles logo lembram da tortura e da morte, que foram suas armas preferidas, usadas para tentar tirar a rebeldia do centro dos corações juvenis.
Luís Carlos Lopes é professor.
O balanço de 1968 continua sendo muito positivo. Não se consegue apagar o que aconteceu naquele ano, bem como, um pouco antes e depois. O final da década de 1960 e o início da de 1970 ficaram marcados para sempre. O esforço para que se esqueçam dos fatos, comportamentos e propostas da época, não é pequeno.
Luís Carlos Lopes
Uma das utopias da geração mais combativa do passado recente brasileiro foi o de chegar a comemorar o dia onde ninguém mais seria preso, torturado ou assassinado por pensar diferente do Estado. O mesmo não aconteceria com os que não concordassem com seus patrões e outros proprietários ou, simplesmente, fossem jovens, negros, pobres e favelados. Esperou-se, durante décadas, pelo fim da censura e pelo direito da livre expressão em todos os domínios da vida. Acreditou-se que os monstros que destruíram os sonhos de felicidade e de liberdade das multidões, que se expressavam em passeatas e no cotidiano social, acabariam sendo colocados no limbo da história. Quantos não abominaram a fome de seus compatriotas? Não só a falta do alimento de todo dia, mas também a inexistência de acesso fácil a bens simbólicos de qualidade. Quantos não reclamavam que não eram sequer donos de seus corpos e de suas sexualidades, tendo que prestar contas a estranhos sobre problemas estritamente pessoais? Quantos não desejaram que o divórcio fosse livre e acessível e que a mentira do casamento sagrado, perfeito e obrigatório fossem levados para um passado de opressão, a esquecer? Quantos nunca aceitaram a hipocrisia social, que tudo encobre e mantém em seu lugar?O movimento de 1968, em todo mundo, foi anárquico, dividido nas mais diversas facções e não raro, paradoxal. Teve significados políticos distintos em cada lugar do planeta. Além do ano, o que o mais o unifica é o grito de revolta juvenil oriunda, sobretudo, das classes médias estudantis. Seus principais atos foram o da mobilização, em jornadas de rua e nas instituições, dos jovens estudantes letrados e politizados, em uma escala que, infelizmente, ainda não se repetiu. Estes jovens queriam mudar o mundo. Queriam o fim da guerra do Vietnã, aceitavam a idéia da autodeterminação dos povos e torciam pela vitória revolucionária nas guerras anticoloniais. Desejavam mais verbas para o ensino e menos investimentos militares. Imaginavam um mundo sem guerras injustas e sem a suprema exploração do homem pelo homem.Essas jornadas eram libertárias. Por todo lado, as questões relativas ao amor e ao sexo, aprisionadas pelos tabus da época, eram mencionadas e se buscavam, na prática, soluções efetivas. Desconstruíam a família tradicional baseada nos laços de sangue e nos interesses das lógicas oportunistas das pensões e das heranças. Queriam algo novo em suas vidas. Por razões óbvias, isto era mais comum nos países mais ricos. Nos pobres, as lutas se radicalizaram, a partir das terríveis questões políticas e sociais da época. Criticavam o autoritarismo de Estado, por onde ele se instalava. Apesar disto tudo, havia um fio que unia os jovens estudantes de todo mundo. Eles se auto-admiravam e pensavam ter superado a dialética tradicional, opondo com vigor os jovens aos velhos. Entretanto, alguns militantes mais velhos acabaram sendo assimilados e cantados como ícones dessa mesma juventude. A luta entre gerações ficou no seu exato lugar, no das diferenças de concepção de mundo e do que fazer.Os estudantes de 1968 acreditavam que poderiam superar as forças conservadoras, a partir de seus brados de revolta e de suas nascentes organizações. Eram, por toda parte, milhares e contavam, em um primeiro momento, com a simpatia de grandes parcelas das classes médias e pobres. O consumo ainda não havia poluído suas cabeças e nem as indústrias culturais tinham o poder de fogo, conseguido mais recentemente. O espetáculo estava começando, como pressentiu Debord, ele mesmo, um soixante-huitard. A comunicação direta era ainda muito forte. As mídias industriais de ponta, apesar de crescentes, não tinham ainda a hegemonia, que seria conquistada nos anos subseqüentes. A miséria sempre horrorizou uma parte significativa das mesmas pessoas que nunca a aceitaram como um fato natural. Alguns se contentaram com a velha solidariedade individual. Outros se revoltaram e quiseram que as estruturas que a produz fossem modificadas. Propuseram-se a contribuir para alterar a ordem do mundo e não se importaram de pagar o preço de suas rebeldias. Muitos não hesitaram em se aproximar do fogo do poder e defenderam, abertamente, o uso da força contra a brutalidade do sistema. Pensavam, idilicamente, que seriam capazes de vencer, porque tinham certeza de que estavam moralmente certos. A ignorância sempre provocou reação similar. Alguns sempre a perceberam como uma forma de dominação e entenderam sua monstruosidade. O não-saber é algo tão produzido com o saber. Descobriram que o engendramento do primeiro era fundamental para manter o controle, transformando cidadãos em consumidores e construindo véus impenetráveis para as parcas possibilidades da visão mais ingênua do mundo. As artes foram revolucionadas, aproveitando-se alguns nichos vazios das indústrias culturais. Foram produzidos artefatos que questionavam ou revolucionavam tudo que estava previamente estabelecido.A ordem racial brasileira foi igualmente questionada por negros, mestiços, brancos e descendentes de ameríndios. Isto ocorreu fortemente amparado no incrível movimento dos direitos civis dos afrodescendentes dos EUA. O brado de Luther King, que advertia a todos que “tinha um sonho”, espalhou-se por onde a questão racial era significativa. Os mais conscientes a entenderam como uma forte opressão que ocuparia o centro da vida social brasileira. Outros disseram que ela era parte do ‘pacote’ social, e que a discriminação só poderia cessar ou diminuir, reformatando-se a sociedade globalmente. A objetificação da mulher, o sexismo, e a homofobia estarreceram a muitos da mesma geração. Não poucos imaginaram uma sociedade onde mulheres e homens vivessem em paz, baseada no respeito mútuo e na tolerância às várias faces da sexualidade humana. É verdade que a compreensão deste problema não foi hegemônica, mas esteve presente, a partir dos notáveis acontecimentos de 1968. Antes, a mesma questão não era quase mencionada.Uma das novidades deste ano foi a da ruptura parcial com o socialismo real. Lutar contra o sistema deixou de ser, como nas décadas anteriores, defender a ortodoxia soviética. Lá começaram a desaparecer as ilusões com a política externa e interna soviéticas. Acreditavam-se mais nos chineses e nos cubanos. Alguns anos depois, as ilusões com a China deram com os burros n’água. As com Cuba foram protegidas por efeito do cruel bloqueio, que ainda está em vigor. E, assim, sucessivamente. Pouco a pouco, as lutas iriam deixar de ser acaudilhadas a interesses de Estado específicos. A invasão russa da Tcheco-Eslováquia, em 1968, jogou uma pá de cal nos sonhos benfazejos do comunismo internacional. É verdade que muitos continuaram acreditando. Mas, neste ano, as dúvidas, que vinham da década de 1950, passaram a crescer. Dentro da lógica geral de opor o novo ao velho, as crenças que vinham da Revolução russa, em 1917, do início de uma nova era, passaram a ser revistas e relativizadas. Neste sentido, a bipolaridade internacional deixou de fazer sentido. Os jovens saíram à busca de caminho alternativos. O mundo ficou mais complexo e as lutas adquiriram novas cores. O balanço de 1968 continua sendo muito positivo. Não se consegue apagar o que aconteceu naquele ano, bem como, um pouco antes e depois. O final da década de 1960 e o início da de 1970 ficaram marcados para sempre. O esforço para que se esqueçam dos fatos, comportamentos e propostas da época, não é pequeno. Durante 2008, quando se completam 40 anos, fez-se de tudo para se diminuir ou turvar sua importância. Algumas estratégias ficaram bem delimitadas nas grandes mídias. Uma foi a de procurar pessoas que estiveram lá, mas que, hoje, negaram completamente ou parcialmente suas convicções. Estes foram os que tiveram mais voz nas mídias do mundo ocidental. Outra, muito apreciada, foi a de enfatizar os aspectos culturais e comportamentais da época, apagando os de natureza política. Há um sério esforço para impedir que as novas gerações saibam o que realmente se deu naqueles anos.O impacto de 1968 na vida política e social do Brasil foi e continua sendo imenso. Ainda hoje, imagens fixas e em movimento da época seduzem quem não o viveu. Fazem lembrar os que lá estavam. É verdade que o mundo de hoje é muito diferente, que algo como ocorreu ali, não seria mais possível. Todavia, muitas das razões que inflamaram o coração dos melhores jovens da época continuam, infelizmente, iguais ou parecidas. A indignação daquele tempo ainda existe. As possibilidades de expressá-la é que estão bastante reduzidas. É como se a polícia tivesse se mudando para dentro dos corações e mentes. Tem se visto alguns episódios da vida estudantil que lembram esse passado. De algum modo, ele está presente como um espectro que assusta os conservadores de sempre. No cinismo que portam, eles logo lembram da tortura e da morte, que foram suas armas preferidas, usadas para tentar tirar a rebeldia do centro dos corações juvenis.
Luís Carlos Lopes é professor.
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